2005-10-13

Tocam os sinos em Melides

Tocam os sinos da igreja de Melides e transportam-me até um universo longínquo, profundamente íntimo, onde não tenho idade, nem saber. Ali não tenho desejos, nem inquietações; existe apenas o meu silêncio, onde não cabe ninguém. Nem eu. É um mar de luz e quietude onde o olhar se reconcilia com a memória do futuro. Esquecido o sentir, resta só o verbo estar.

Um telefone toca dentro do café e desperta-me para o casario branco, de moldura azul, que me rodeia. O Sol teima em quedar-se, apesar de Outubro já se ter estreado.

E tocam novamente os sinos, três vezes já, mas agora levam-me para fora de mim, para um espaço e um tempo que se querem próximos: o espaço e o tempo de viajar. 31 anos, casada há seis meses e de bloco e caneta na mão, a bagagem imprescindível para uma peregrinação de três, quatro meses até aos antípodas. Antípodas: o oposto de mim, onde mora o outro.

Agora os sinos não tocam e regressou o desejo, voltaram as inquietações. Sempre esta sede de ir, de trocar o emprego («tens a certeza? olha que é estável e seguro») pela errância. E se soubessem, como eu sei, que é na incerteza de cada passo que emerge a segurança maior. E se sentissem, como eu sinto, que ter tudo significa não precisar de nada. E se eu soubesse e sentisse, como alguns sabem e sentem, que não interessa nada o que eu sei ou sinto.

O que eu vejo talvez interesse: os jornais dobrados sobre a mesa de plástico azul, numa esplanada de pranchas de madeira assentes sobre os paralelepípedos de uma rua esquecida, amaciados pelas rodas de uma carrinha que contorna a esquina sem medo de roçar na virgem cal das fachadas alentejanas. Molengona esta manhã em que os flocos de nuvem brincam com os raios de Sol. O tempo suspenso entre um sumo de laranja e uma meia de leite, intervalados por uma torrada coberta de manteiga que deixa nódoas de gordura no papel magro que protege o pires.

«Vamos embora», diz ele em forma de pergunta, arrastando a cadeira e pegando no porta-moedas para tratar da conta. Entra uma senhora ao telemóvel («esta terça-feira não posso, tenho reunião no colégio») e esfuma-se, pouco a pouco, a dimensão indefinida onde tinha mergulhado. O motor da carrinha range, as chávenas e as colheres atiradas para a banca de alumínio fundem-se numa sinfonia ao balcão. Regresso lentamente, contrariada quase, ao sábado em que estou. É sempre mais fácil ir do que vir.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

I Carry Your Heart With Me

I carry your heart with me
(I carry it in my heart)
I am never without it
(Anywhere I go you go, my dear;
And whatever is done by only me
Is your doing, my darling)
I fear no fate
(For you are my fate, my sweet)
I want no world
(For beautiful you are my world, my true)
And it’s you are whatever a moon has always meant
And whatever a sun will always sing is you

Here is the deepest secret nobody knows
(Here is the root of the root
And the bud of the bud
And the sky of the sky
Of a tree called life;
Which grows higher than the soul can hope
Or the mind can hide)
And this is the wonder
That’s keeping the stars apart

I carry your heart
(I carry it in my heart)

by E. E. Cummings

1:02 a.m.  

Enviar um comentário

<< Home