2006-01-18

Nkosi Sekeleli Uluru*

*Deus abencoe Uluru (em swahili) / Homenagem aos nossos irmaos (e sobrinha!) de passagem pela Africa-do-Sul

Nota preambular: eu sei que gostam de menos conversa e mais bonecos, mas a experiencia em Ayer's Rock foi das mais marcantes desde a Ilha da Pascoa e quisemos partilhar com algum pormenor...
Entao aqui vai:



Faltavam umas horas para a noite se despedir e a Lua estava ainda suspensa, alta e cheia, no ceu. O que mais nos impressionou nem foi tanto a prontidao com que nos levantamos (faltavam dois minutos para o despertador tocar, e estava marcado para as 4h30), mas o bulicio nos sanitarios onde outros mochileiros como nos faziam apressadamente a higiene matinal. O objectivo era o mesmo: apanhar o nascer do Sol em Uluru, a Montanha Sagrada dos Aborigenes, no coracao vermelho da Australia.










(Nao e' maravilhoso haver ainda lugares que nos fazem saltar da cama antes das galinhas?)

Na vespera ja tinhamos alugado um carro para nao perdermos o por-do-sol. E' curioso como tudo aqui revolve em torno do ciclo solar, ao ponto de na recepcao dos hoteis estarem afixadas as horas do nascente e poente (na Costa Leste predominam as mares). Por um lado, a temperatura oscila entre os 35 e os 40 graus centigrados e a melhor altura para caminhar e' antes das oito da manha ou depois das seis da tarde. Por outro lado, durante o crepusculo, as cores de Uluru sao particularmente intensas e variam de segundo para segundo.

As opcoes para chegar 'a Montanha sao limitadas, uma vez que Ayer's Rock e' uma povoacao criada exclusivamente para dar apoio as incursoes turisticas a Uluru e os locais aproveitam-se naturalmente disso. Resume-se a meia duzia de hoteis de varios niveis (escolhemos o mais barato, o Outback Pioneer Lodge), um pequeno centro comercial com supermercado, estacao de correios, esquadra, bombeiros, centro medico e tres ou quatro operadores turisticos.

Os precos reflectem o factor "isolamento" (a localidade mais proxima e' Alice Springs e fica a 500 km de distancia): pagamos 82 dolares australianos - cerca de 55 euros - por duas camas numa camarata de quatro (o dobro da media do resto do pais). E so descobrimos que havia uma pista de aterragem quando estavamos na fila do check-in no voo de Cairns para Alice Springs. Consultando o placard de informacao, percebemos que o aviao fazia escala em Ayer's Rock e pedimos no balcao da Qantas para alterar o nosso plano de voo e sair na primeira paragem. (Assim poupamos uma viagem de autocarro de cinco horas!)

A pensao em que ficamos tinha um ambiente caloroso e descontraido, com uma area comum decorada com mesas improvisadas a partir de grandes barris de madeira, que lhe davam um certo ar de faroeste. Os clientes eram uma mistura engracada de "backpackers" de varios tamanhos, idades e origens, alguns aborigenes e pelo menos um anao.

De noite fizemos ali o nosso poiso, para dar seguimento ao Torneio Intercontinental de Snooker, cuja primeira ronda decorreu em Santiago do Chile. Aproveito para actualizar os resultados: depois de estar a perder 4-1, o Ricardo protagonizou uma recuperacao notavel e lidera agora a tabela com uns tres confortaveis pontos de avanco sobre a Cristiana: 10 - 7 (Isto nao fica assim...)

Antes de sucumbirmos ao cansaco, ainda actualizamos o blog com os relatos da Costa Leste; com tudo isto fomos dos ultimos a reculher, ja passava bem da meia-noite. Quando chegamos ao quarto, ainda tivemos que batalhar com a porta, que era bastante pesada e solida para impedir a entrada - imaginamos nos... - a quaisquer hospedes indesejados, tais como cobras ou aracnideos...

Malogradamente, tivemos que recorrer ao pontape. Apos o estrondo e enquanto acendia a luz, brinquei com o Ricardo:
- Imagina so se entretanto chegou alguem e ficou no nosso quarto!
Ooops... um vulto semi-nu escondido debaixo dos lencois no beliche da direita estremunhou. Afinal tinhamos mesmo companhia!

Depois de variadissimos pedidos de desculpa (aquele pontape na porta deve-lhe ter furado os timpanos e acrescentado uns quantos cabelos brancos 'a conta do susto) la nos deitamos nas duas camas do beliche da esquerda.

Mas o sono tardou em chegar, especialmente para a Cristiana que nao descansou ate se esgueirar para a cama do Ricardo na ilusao (que maldade!) de que ele a protegesse, nao fosse o estranho revelar-se um psicopata 'a solta.

Felizmente para nos (infelizmente para a historia, que assim fica menos suculenta), nao se passou absolutamente nada.

De madrugada fomos mais cuidadosos e conseguimos sair silenciosamente do quarto, com a tralha toda atras. Guardamos as mochilas no carro e fizemo-nos 'a estrada para assistir ao tao-aclamado nascer do Sol.

Dos hoteis ate 'a Montanha nao sao mais do que vinte minutos de carro.
'Aquela hora o ceu vai largando os azuis mais escuros enquanto o horizonte se vai tingindo de amarelos e laranjas.

A primeira vista que tivemos de Uluru foi da sua face poente, enegrecida pela sombra e com as primeiras luzes do dia a despontar nas suas costas.

E' dificil descrever a Montanha, e' mais facil senti-la.

Parece uma cascata de areais do deserto, vindas do Ceu e congeladas no Tempo.

Ergue-se no meio de um deserto intensamente vermelho, profundamente arido, apenas interrompido por alguns arbustos e arvores que salpicam o solo, fazendo lembrar os proprios padroes tradicionais dos aborigenes.

Se perguntarem a um aborigene quando ou como se formou, ele respondera' desde sempre, ou desde Tjukurpa, que e' a Lei que contem o mito fundador da cultura Aborigene, para alem de explicar os fenomenos da Natureza e de reger as relacoes sociais.

"Nao pomos a nossa Lei no papel. Foi-nos entregue pelos nossos avos e pelos nossos pais para que a guardassemos nas nossas cabecas e nos nossos coracoes" - assim se pode ler nos murais que adornam o Centro Cultural do Parque Nacional Uluru.

Aos espiritos mais cientificos, os geologos ocidentais explicam que a Montanha e' uma formacao rochosa com 10 quilometros de circunferencia e 348 metros de altura. O embriao data de ha 500 milhoes de anos atras (mais coisa, menos coisa...), quando os sedimentos comecaram a aglomerar-se no chao do oceano. Passados cerca de 150 milhoes de anos, o nivel do mar baixou, aquele solo "subiu" 'a superficie e ficou assim exposto 'a erosao, dando inicio ao processo de formacao de Uluru.

Os primeiros aborigenes chegaram ha 22 mil anos, atravessando a plataforma continental que unia a Asia 'a Australia. O Homem Branco chegou ha 200 anos e "devolveu" oficialmente a Montanha Sagrada aos aborigenes em 1985.

Cada caverna e cada veio escuro que se ve nas varias faces de Uluru nao sao formacoes geologicas, sao marcas ancestrais de outro Tempo (e outro Espaco?):
as grutas que Kuniya, a mulher serpente que veio de longe, escavou para depositar os ovos que veio chocar aqui;
os golpes que a mesma Kuniya desferiu contra o guerreiro Liru, uma cobra venenosa que roubara a vida ao sobrinho dela que vivia no lado oposto da Montanha;
o fumo e as cinzas que intoxicaram Lungkata, o lagarto de lingua azul que roubou a dois passaros cacadores, os Panpanpalala, a carcassa do emu que eles tinham apanhado para o jantar.

Acompanhados pela danca de cores no firmamento, fomo-nos aproximando de Uluru, deixando que a paisagem nos tocasse e comovesse. A pedra arenosa da Montanha muda de cor tao rapido quantoo ceu; o ar cheira a verde e o sonido matinal dos grilos lembra o eco do didgeridoo.

Nao fotografei.

Senti que tinha que me deixar viver a experiencia em pleno.
E por outro lado, intui que seria quase um sacrilegio tentar captar mecanicamente o Espirito Sagrado que habita Uluru (e que e' o mesmo que escutamos na Ilha da Pascoa).

Felizmente, o Ricardo e' mais pragmatico (e generoso) e logo disse, pensando em voces:
- Tas doida?! Eu quero tirar para eles depois verem.

E assim tomou ele conta do equipamento e deixou-me 'a solta para ir caminhando vagarosamente ate ao sope da Montanha Sagrada. Sentei-me sobre a rocha vermelha, de costas para nascente, e fiquei ali ficando.

Entao o Sol ergueu-se e olhou-se ao espelho. Reviu-se nos tons de fogo que iluminaram momentaneamente a face de Uluru. Depois chegou uma nuvem negra que lhe escondeu os raios e lhe segredou: Voltas ca todos os dias, porque e' aqui que te sentes mais esplendoroso.

Enquanto isso, a Lua deslizou discretamente para tras da Montanha e preparou-se para nascer, momentos depois, algures nos antipodas, algures do vosso lado.

14 Comments:

Anonymous Anónimo said...

uau...

1:04 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Quem vos disse que preferimos imagens. Não há imagem nenhuam que nos faça voar tanto como a imaginação que flutua depois de ler as vossas palavras. Prefiro as palavras! Com uma fotografia não me sinto como se estivesse lá, a viver tudo convosco. Com as palavras até consigo sentir o toque da brisa que passa...

Um beijão

1:57 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

faço minhas todas estas palavras....principalmente:
UAU!

Beijos e abraços
Ruizinho & companhia

PS: Ainda falando da Tusa...não foi nada que não me tivesse passado pela cabeça (as barbatanas)...mas como o nosso Português fala mais alto...só pensei mesmo na grande "tusa" que deve ter sido esse mergulho!

2:15 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

ULALU (UAU em Aborigene)

2:54 p.m.  
Blogger antipod@s said...

LOL (Gargalhada em aborigene)

Dao cabo de nos, pa!

E nos aqui a fazer render as insonias... a blogar.

Saudacoes Perambulantes

3:28 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Agora gostei ! E ainda bem que gostaram e especialmente que sentiram.
Um beijo para os dois mal educados.
António

3:41 p.m.  
Blogger antipod@s said...

"Mal educados"... Toninho, ate consigo ouvir a tua gargalhada! Aquela gargalhada!

Saudades
C

4:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

oi gandes malucos!

temos de dizer que somos presença assídua no site, mas para comentar é k é + complicado... hihi...

tb keriamos ter entrado no concurso, pq ambicionavamos ganhar a maq de café (ate pq ainda n temos ca em casa, lol!). temos de reclamar com a organização, k deveria ter especificado a data limite de candidatura!!! tá mal! ah poix eh... =p

O q interessa é k se estejam a divertir mt e k n se eskeçam do fds de primos qd voltarem (eh cá em casa - já sabem!)

um beijão

*Filipa e Patrícia*

8:41 p.m.  
Blogger antipod@s said...

O juri reuniu e considerou pertinente o argumento das Primaxx Jervis, sobre o prazo da candidatura. Como tal, deliberou a favor de mais tres premios:

Premio Justica: Primaxx Jervis

Premio Sintonia: Casal Bolota

Premio Boas Maneiras: Antonio Luis

Nota:
O Premio Solidariedade foi revisto e re-baptizado para Premio Politicamente Correcto (as iludencias aparudem...), mantendo-se a visada: sissing about

1:51 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Agradeço a revisão do meu premio. Já me sinto justiçada...
Com os melhores cumprimentos

1:41 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Cris, cristiana maria, cristianinha... minha amiga... minha linda!
tenho tantas saudades tuas!! a unica coisa que é maior do estas saudades é a felicidade que sinto ao ler os vossos testemunhos, que me fazem viajar por esse mundo tao maravilhoso com voces!!
continuem sempre e cada vez mais felizes e obrigada por nos deixarem partilhar a vossa aventura...
beijinhos grandes e abracinhos bem apertados, cheios de saudade.
soninha

11:37 p.m.  
Blogger antipod@s said...

Soninha,

um beijao grande com muitas saudades deste lado tambem.

O abracinho bem apertado vou cobrar no regresso! :)

C

6:03 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

É tão bom, na minha hora de almoço, quando fico agarrada ao computador poder sonhar e viver um bocadinho da vossa aventura. Obrigado por a partilharem e nós fazerem também felizes. (obrigado pela foto da Montanha).

BEIJOS GRANDES
Rita

1:30 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Ritinha:
consegues sempre estar presente.
Obrigada!
Beijao enorme

12:28 p.m.  

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