2005-12-08

O carrinho vermelho

Num esforço supremo, o carrinho vermelho trepou, arfando, a inclinação final da subida grande até pairar suspenso sobre a onda de ferro. Os faróis engoliram como dois olhos grandes a vista em seu redor e o estômago encolheu-se, verde que nem uma ervilha, ao deparar-se com a descida maior. Nesse micro segundo que medeia o antes e o agora – vertiginoso, periclitante – cabiam «todas as suas memórias e todos os seus medos» (quem viu a série Taken?).

Memórias de carrinho minúsculo
quando rodava livre no carrossel
entre a Dona Chávena e o Senhor Pégaso.
Medos de carrinho desconsolado
quando lhe disseram que o carrossel já não era próprio,
que isso era criancice,
agora toca de passar para o ringue dos crescidos.
Memórias de carrinho bravo
quando adoçou a boca
com os gritos e gargalhadas
cuspidos a cada choque.
Medos de carrinho inseguro
que pediu a mão ao amigo
quando decidiu sair do ringue
e desafiar a montanha russa.
Memórias de carrinho extasiado
quando escalou a subida grande
e mirou a descida maior.

E de repente tudo ali! – 360 graus inteiros condensados num micro segundo.

Carrinho vermelho
chegou ao topo da subida.
Agora vem
vem a dimensão relâmpago.

E corre o sangue mais forte do que o vento.