My name is Mr. Handsome
Estamos em Bangkok!
O aviao que nos trouxe de Singapura, depois de uma ligacao de Darwin onde nos despedimos da Australasia, aterrou ontem faltavam dois minutos para a meia-noite.
Depois de desembarcarmos, ainda demoramos uma boa hora a passar a imigracao. Apesar de nao ser necessario visto (a Tailandia dispensa-o para os visitantes da maior parte dos paises), o aeroporto tem tanto movimento que ha sempre dezenas de voos (milhares de passageiros...) a chegar.
A espera foi aligeirada pela conversa animada que encetamos com dois californianos que estavam atras de nos e que tinham acabado de chegar de Pequim. Passaram seis meses na China a dar aulas de Economia numa universidade, integrados num programa de cooperacao patrocinado por uma organizacao crista sino-americana. O objectivo e' promover as relacoes bilaterais e mostrar que ha mais no Ocidente para alem de americanos imperialistas.
Quando finalmente recolhemos a bagagem e saimos ca para fora, ficamos agradavelmente surpreendidos com a temperatura. Nao estavam mais do que 25 graus e a humidade era reduzida.
Sentamo-nos entao no exterior e ficamos ainda uma hora a debater o proximo passo. As opcoes eram variadas: arranjar alojamento, dormir no aeroporto, apanhar um taxi para a estacao de comboio de caminho para o Camboja...
Nestas alturas sentimo-nos sempre inundados de informacao e com poucas bases para tomar uma decisao fundamentada. Como nao dispomos de muito tempo, a preocupacao de nos organizarmos bem para aproveitar o maximo possivel esta' sempre presente.
Venceu a primeira opcao, especialmente porque tinhamos dormido muito pouco na vespera e precisavamos de uma boa noite de repouso antes de nos "atirarmos aos leoes". Valeram-nos os balcoes de informacao no aeroporto, que cumprem aparentemente horario completo.
Foi assim que nos encontramos dentro de um taxi, a zarpar pelas ruas adormecidas de Bangkok, em direccao a Chinatown. O hotel tem o mesmo nome que o bairro onde esta inserido e fica perto da estacao central.
Quando acordamos no dia seguinte, a vista da janela do quarto era um contraste gritante do sossego da noite anterior: o asfalto nem se ve com a quantidade de carros, motos, tuk-tuks, autocarros, taxis, bicicletas e gente, muita gente. So' a capital tem a mesma populacao do que Portugal; o pais inteiro tem cerca de 70 milhoes de habitantes.
Mal pusemos o pe fora da recepcao do hotel, fomos inundados por uma panoplia indescritivel de cheiros, ruidos e cores. Incenso, gengibre, fumo, noodles, cha, caril, noz moscada, incenso outra vez, motores, apitos dos policias, melodias asiaticas, vermelho, dourado, vermelho, vermelho, verde, cinzento, azul, vermelho...
Passado pouco, o bulicio envolve-nos, passa para o sangue e comeca a correr nas veias em forma de adrenalina. Uma palavra predomina: AVENTURA!
E' enorme a excitacao de estar num pais novo, com todas as opcoes em aberto. As condicionantes sao poucas: tres semanas de viagem, um bilhete de aviao com flexibilidade para alterar a data de partida para a India e toda uma regiao para explorar.
Tailandia, Camboja, Vietname, Laos... ca vamos nos!
Seduzidos com as perspectivas, apressamos o passo e fomos tratar das passagens de comboio para Aranyaprathet, a vila que fica na fronteira oriental com o Camboja, onde depois se apanha um autocarro ate Siem Reap. Essa e' a cidade que serve de acesso aos templos de Angkor Wat, o maior complexo religioso de todo o mundo.
Ainda nao tinhamos entrado na estacao ferroviaria e ja tinhamos sido abordados por tres operadores turisticos que nos perguntaram para onde iamos, como, quando, com quem, porque... todos nos desaconselharam o nosso plano, apesar de inexistente, e recomendaram antes que fossemos ao balcao de informacao que se encontra no primeiro andar do edificio centenario.

Em solo desconhecido nao vale a pena fazermo-nos de entendidos. Seguimos o conselho e fomos assim conduzidos ao jovem de 33 anos que trataria de nos.
- Hello, you name what my name is? Paul Handsome - disse ele com os dentes a brilhar.
- Oh! And my name is Cristiana Beautiful - retorqui sem resistir ao trocadilho.
Estava dado o mote para as proximas quatro horas, que foram assim preenchidas com mapas, formularios para vistos, ideias e troca de ideias, muita brincadeira e finalmente um plano para os proximos sete dias.
O nosso Mr. Handsome revelou-se um vendedor nato e nao demorou muito a convencer-nos para nos alistarmos a ele.
- Visa, you have visa?
- No, we buy at the frontier.
- Nooooooooooo! - exclamava ele, contorcendo o rosto. - If you go there, they make you pay double. I will do it for you.
Enquanto nos atendia, ia distribuindo o humor pelos outros estrangeiros que ali se dirigiam.
- I give you an open ticket, you give me an open heart... - e ria-se.
- You want a discount? I give you smile... - e continuava a rir.
Quando olhou para o lado e me apanhou divertida a observar, lancou-me a provocacao:
- You like my job? Better than journalist, no?
Saimos dali com um pacote de uma semana para chegar ate Luang Prabang, uma cidade no Laos que e' Patrimonio Mundial da Humanidade e que e' descrita como a mais bonita no Sudeste Asiatico. E' ai' que passamos o Ano Novo chines, que se estende de 29 a 31 de Janeiro.
Ate la temos uma viagem de autocarro de sete horas ate Chiang Mai, uma regiao lindissima no Norte da Tailandia onde nos aguarda uma excursao de tres dias pela selva adentro, com direito a passeio de elefante, travessia de jangada, caminhada na montanha e acampamento em aldeias tipicas.
No dia 27 retomamos um autocarro para chegar 'a fronteira do Laos e passamos ai' a noite. No dia seguinte apanhamos um barco para subir o Rio Mekong ate Luang Prabang, um percurso que se faz em dois dias (pernoitamos em Pakbeng).
O plano Handsome (assim passa a ser conhecido) implica que os templos de Angkor Wat sejam um dos ultimos destinos da nossa rota da Indochina (guardar o melhor para o fim?). Fazemos o circuito pelo Norte da Tailandia, depois atravessamos o Laos, seguimos para o Vietname, descemos de comboio ate Saigao e cruzamos entao para o Camboja. No final regressamos a Bangkok, onde contamos apanhar um aviao para Bombaim no dia 11 de Fevereiro. (E' provavel que adiemos o voo.)
Despedimo-nos do nosso agente com a promessa de regressarmos no dia seguinte ao meio-dia com uma bandeira de Portugal para ele juntar 'as duas fotos tipo-passe que nos pediu para afixar no placard do escritorio. Talvez por ter gostado de nos, fez-me uma confissao enquanto o Ricardo foi levantar dinheiro para lhe pagarmos.
- You know, my name is not Mr. Handsome.
- No?
- No, I made it up.
- So what is your original name?
- Mr. Panupong.
- Very well, Mr. Panupong. Khop Khun Kha*.
* Khop Khun Kha: obrigada em tailandes
O aviao que nos trouxe de Singapura, depois de uma ligacao de Darwin onde nos despedimos da Australasia, aterrou ontem faltavam dois minutos para a meia-noite.
Depois de desembarcarmos, ainda demoramos uma boa hora a passar a imigracao. Apesar de nao ser necessario visto (a Tailandia dispensa-o para os visitantes da maior parte dos paises), o aeroporto tem tanto movimento que ha sempre dezenas de voos (milhares de passageiros...) a chegar.
A espera foi aligeirada pela conversa animada que encetamos com dois californianos que estavam atras de nos e que tinham acabado de chegar de Pequim. Passaram seis meses na China a dar aulas de Economia numa universidade, integrados num programa de cooperacao patrocinado por uma organizacao crista sino-americana. O objectivo e' promover as relacoes bilaterais e mostrar que ha mais no Ocidente para alem de americanos imperialistas.
Quando finalmente recolhemos a bagagem e saimos ca para fora, ficamos agradavelmente surpreendidos com a temperatura. Nao estavam mais do que 25 graus e a humidade era reduzida.
Sentamo-nos entao no exterior e ficamos ainda uma hora a debater o proximo passo. As opcoes eram variadas: arranjar alojamento, dormir no aeroporto, apanhar um taxi para a estacao de comboio de caminho para o Camboja...
Nestas alturas sentimo-nos sempre inundados de informacao e com poucas bases para tomar uma decisao fundamentada. Como nao dispomos de muito tempo, a preocupacao de nos organizarmos bem para aproveitar o maximo possivel esta' sempre presente.
Venceu a primeira opcao, especialmente porque tinhamos dormido muito pouco na vespera e precisavamos de uma boa noite de repouso antes de nos "atirarmos aos leoes". Valeram-nos os balcoes de informacao no aeroporto, que cumprem aparentemente horario completo.
Foi assim que nos encontramos dentro de um taxi, a zarpar pelas ruas adormecidas de Bangkok, em direccao a Chinatown. O hotel tem o mesmo nome que o bairro onde esta inserido e fica perto da estacao central.
Quando acordamos no dia seguinte, a vista da janela do quarto era um contraste gritante do sossego da noite anterior: o asfalto nem se ve com a quantidade de carros, motos, tuk-tuks, autocarros, taxis, bicicletas e gente, muita gente. So' a capital tem a mesma populacao do que Portugal; o pais inteiro tem cerca de 70 milhoes de habitantes.
Mal pusemos o pe fora da recepcao do hotel, fomos inundados por uma panoplia indescritivel de cheiros, ruidos e cores. Incenso, gengibre, fumo, noodles, cha, caril, noz moscada, incenso outra vez, motores, apitos dos policias, melodias asiaticas, vermelho, dourado, vermelho, vermelho, verde, cinzento, azul, vermelho...
Passado pouco, o bulicio envolve-nos, passa para o sangue e comeca a correr nas veias em forma de adrenalina. Uma palavra predomina: AVENTURA!
E' enorme a excitacao de estar num pais novo, com todas as opcoes em aberto. As condicionantes sao poucas: tres semanas de viagem, um bilhete de aviao com flexibilidade para alterar a data de partida para a India e toda uma regiao para explorar.
Tailandia, Camboja, Vietname, Laos... ca vamos nos!
Seduzidos com as perspectivas, apressamos o passo e fomos tratar das passagens de comboio para Aranyaprathet, a vila que fica na fronteira oriental com o Camboja, onde depois se apanha um autocarro ate Siem Reap. Essa e' a cidade que serve de acesso aos templos de Angkor Wat, o maior complexo religioso de todo o mundo.
Ainda nao tinhamos entrado na estacao ferroviaria e ja tinhamos sido abordados por tres operadores turisticos que nos perguntaram para onde iamos, como, quando, com quem, porque... todos nos desaconselharam o nosso plano, apesar de inexistente, e recomendaram antes que fossemos ao balcao de informacao que se encontra no primeiro andar do edificio centenario.

Em solo desconhecido nao vale a pena fazermo-nos de entendidos. Seguimos o conselho e fomos assim conduzidos ao jovem de 33 anos que trataria de nos.
- Hello, you name what my name is? Paul Handsome - disse ele com os dentes a brilhar.
- Oh! And my name is Cristiana Beautiful - retorqui sem resistir ao trocadilho.
Estava dado o mote para as proximas quatro horas, que foram assim preenchidas com mapas, formularios para vistos, ideias e troca de ideias, muita brincadeira e finalmente um plano para os proximos sete dias.
O nosso Mr. Handsome revelou-se um vendedor nato e nao demorou muito a convencer-nos para nos alistarmos a ele.
- Visa, you have visa?
- No, we buy at the frontier.
- Nooooooooooo! - exclamava ele, contorcendo o rosto. - If you go there, they make you pay double. I will do it for you.
Enquanto nos atendia, ia distribuindo o humor pelos outros estrangeiros que ali se dirigiam.
- I give you an open ticket, you give me an open heart... - e ria-se.
- You want a discount? I give you smile... - e continuava a rir.
Quando olhou para o lado e me apanhou divertida a observar, lancou-me a provocacao:
- You like my job? Better than journalist, no?
Saimos dali com um pacote de uma semana para chegar ate Luang Prabang, uma cidade no Laos que e' Patrimonio Mundial da Humanidade e que e' descrita como a mais bonita no Sudeste Asiatico. E' ai' que passamos o Ano Novo chines, que se estende de 29 a 31 de Janeiro.
Ate la temos uma viagem de autocarro de sete horas ate Chiang Mai, uma regiao lindissima no Norte da Tailandia onde nos aguarda uma excursao de tres dias pela selva adentro, com direito a passeio de elefante, travessia de jangada, caminhada na montanha e acampamento em aldeias tipicas.
No dia 27 retomamos um autocarro para chegar 'a fronteira do Laos e passamos ai' a noite. No dia seguinte apanhamos um barco para subir o Rio Mekong ate Luang Prabang, um percurso que se faz em dois dias (pernoitamos em Pakbeng).
O plano Handsome (assim passa a ser conhecido) implica que os templos de Angkor Wat sejam um dos ultimos destinos da nossa rota da Indochina (guardar o melhor para o fim?). Fazemos o circuito pelo Norte da Tailandia, depois atravessamos o Laos, seguimos para o Vietname, descemos de comboio ate Saigao e cruzamos entao para o Camboja. No final regressamos a Bangkok, onde contamos apanhar um aviao para Bombaim no dia 11 de Fevereiro. (E' provavel que adiemos o voo.)
Despedimo-nos do nosso agente com a promessa de regressarmos no dia seguinte ao meio-dia com uma bandeira de Portugal para ele juntar 'as duas fotos tipo-passe que nos pediu para afixar no placard do escritorio. Talvez por ter gostado de nos, fez-me uma confissao enquanto o Ricardo foi levantar dinheiro para lhe pagarmos.
- You know, my name is not Mr. Handsome.
- No?
- No, I made it up.
- So what is your original name?
- Mr. Panupong.
- Very well, Mr. Panupong. Khop Khun Kha*.
* Khop Khun Kha: obrigada em tailandes

4 Comments:
...que belo será esse passeio...com a história do mapa não resisti...e procurei onde andam os nossos perambulantes.
E já está online:
www.ruiestrelado.com/perambulante/map.jpg
Divirtam-se!
Ruizinho & Companhia ilimitada
Só vocês para me conseguirem fazer fugir da realidade do estudo e voar até ao sonho de uma viagem. Senti-me convosco, a ouvir o sotaque do dito Mr Handsome a falar inglês e a imaginar o percurso que ele vos preparou.
Resumindo, tenho muitas saudades vossas. Estou convosco! Um beijão
Então? Deixaram-nos em Bangkok?
Bem ... estou de novo no circuito!
Ainda vou a tempo de apanhar o combóio?
Creio que como só hoje (1.Fev) consigo "aterrar" vou ter que meter por um atalho para nos encontrarmos no Laos...
Não impede que, no meu imaginário, navegue pelo Mekong em "speedboat" tailandês (yupeeee!!!!!!) para vos apanhar.
Beijão grande
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