Meditando no Mekong
- Cristiana... - o Peppe, um italiano de 74 anos que esta sozinho de viagem, tocou-me ao de leve no braco e despertou-me da minha divagacao. - E' dificil descrever o Mekong, nao e'?
Eu propria estava imersa nas aguas convulsas do grande rio que alimenta o Sudeste asiatico, levada pelo embalo monocordico do barco de madeira que faz a ligacao entre o Norte da Tailandia e Luang Prabang, a capital historica do Laos. A viagem de 300 km leva dois dias, com oito horas de navegacao em cada um.
- E' isso exactamente que pensava, Peppe - respondi ao meu companheiro de banco, que tinha a pele tostada, os cabelos convertidos ao branco e um sorriso gentil que so 'as vezes emerge. Mais cedo, as maquinas fotograficas de peso que ambos carregavamos tinham servido de pretexto de aproximacao.
- Como explicar 'as pessoas? - prosseguia ele - As fotos nao captam...

- Pois, nao basta a imagem. E' uma experiencia - concordei eu, partilhando depois um pensamento que surgira intuitivamente - o Mekong e' uma meditacao.
Ficamos ambos satisfeitos com a palavra. Meditar era o que vinhamos fazendo desde ha horas atras. O olhar nao se cansa de perambular pelas margens de selva cerrada que levaram o Peppe a reflectir: "agora compreendo porque os americanos perderam a guerra do Vietname".
As aguas opacas denunciam correntes ferozes e remoinhos traicoeiros, que revolvem em torno das rochas vulcanicas dispersas no curso do rio. A luz e' intensa, amarela como o leito, mas o ritmo e' sereno e convida 'a introspeccao.
As barcas de madeira transportam os pescadores de rede em rede e, de quando em vez, o sossego e' rasgado pelas lanchas motorizadas que galgam o percurso inteiro em apenas cinco horas.
A viagem e' por vezes quebrada por paragens na costa, que sao providenciais para os vendedores ambulantes que, durante meia hora, tomam conta do barco e dos turistas.

- Sao os piratas do Mekong - brincava a Ramona, uma advogada holandesa de 25 anos que tirou uma sabatica para passar quatro meses nesta zona.
A agitacao momentanea sacode-nos a todos de riso, enquanto comerciantes de palmo e meio saltam de barco em barco com cestas de banana e Beerlao, a cerveja local. Ninguem diz que nao a uma crianca de sorriso docil e olhar amendoado.
Quando chegamos a Pakbeng, a aldeia onde pernoitamos a meio caminho, os musculos estao moidos e ninguem tem alojamento. A nos juntam-se o Peppe, a Ramona e outros dois viajantes: a Jennifer, uma solicitadora americana de 35 anos, que esta ha um ano a fazer a volta ao mundo em busca de si propria; e o Alain, um frances de origem chinesa que esta 'a descoberta das suas raizes no Laos, o pais que os pais abandonaram na decada de 70. Grupo mais heterogeneo nao podia haver e a conversa vai fluindo em tons de frances, ingles, italiano e espanhol.
Entre as inumeras propostas que recebemos dos aldeoes, escolhemos a do Mr. Wong, que leva cerca de 2 euros por um quarto com casa-de-banho partilhada, numa guesthouse de madeira. Os "tres minutos de distancia" inicialmente garantidos depressa se convertem em 10, mas o Alain ajuda o Peppe a carregar a maleta de rodas.
Pelo caminho, com os ombros castigados pelos 15 kg de mochila, vamos apreciando a rua unica de Pakbeng, preenchida por pensoes e restaurantes. Os barcos representam a subsistencia da aldeia, que sobrevive 'a conta dos viajantes que se aventuram por estas bandas pouco desbravadas.
O jantar nao podia ter servido de melhor introducao ao Laos: salada de papaia verde e caril de vegetais com "sticky rice", um arroz com goma suficiente para fazer bolinhas com a mao e molhar no acompanhamento, segundo a tradicao local.
O serao foi animado com a guitarra do Mr. Wong, mas nao se prolongou muito porque 'as 21h30 desligam-se os geradores da aldeia. Deitamo-nos 'a luz da vela e dormimos com os anjos sorridentes do Laos.
No dia seguinte, arrancamos cedo e passamos por um restaurante para apanhar uma baguette (heranca da ocupacao francesa) para as oito horas de viagem.
Quando finalmente avistamos Luang Prabang, o sol ja se tinha escondido por tras dos cumes das montanhas, pintando de ouro as aguas do Mekong. 'Aquela hora magica, as abobodas dos templos reluziam como um convite nobre para explorar a cidade que a Unesco classificou como Patrimonio da Humanidade em 1995.
O estatuto obriga 'a preservacao das dezenas de edificios historicos, uns religiosos, outros exemplos da arquitectura franco-vietnamita. Por esse motivo, e porque o acesso e' dificultado pelas montanhas circundantes, Luang Prabang 'e das poucas cidades asiaticas que nao sucumbiu ao transito caotico e aos arranha-ceus. O ritmo e' diametralmente oposto ao frenetismo de Bangkok ou Kuala Lumpur.
Depois de algumas buscas infrutiferas devido 'a epoca alta, conseguimos encontrar alojamento numa guesthouse com quartos revestidos a madeira, casa-de-banho privativa e higiene irrepreensivel. Tudo por 120 mil kips, cerca de 8 euros: espantoso!
Ninguem resistiu a tomar imediatamente um duche quente como balsamo contra a fadiga da viagem. Quando descemos para jantar, encontramos o Alain sentado no chao, de perna cruzada, numa roda de quatro homens que se debrucavam sobre uns pratos de comida tipica.
Juntamo-nos 'a festa e fomos brindados com rodadas de beerlao e sticky rice com carne de bufalo. Ficamos a saber que aquela era a noite de estreia da pensao e sentimo-nos honrados por partilhar ocasiao tao especial.
A delicadeza dos gestos e a bondade dos sorrisos levam-nos a questionar por que motivo o Laos e' tao desconhecido. E' certo que o regime comunista apenas ha duas decadas comecou a abrir timidamente o pais ao turismo, mas a populacao esta mais do que receptiva a estrangeiros.
Com o Alain a servir de interprete, o dono da pensao, Mr. Philaylak, fez-nos um unico pedido depois de nos desejar uma boa estadia:
- Quando voltarem para a vossa terra, digam a todos quao bonita e' Luang Prabang.
Eu propria estava imersa nas aguas convulsas do grande rio que alimenta o Sudeste asiatico, levada pelo embalo monocordico do barco de madeira que faz a ligacao entre o Norte da Tailandia e Luang Prabang, a capital historica do Laos. A viagem de 300 km leva dois dias, com oito horas de navegacao em cada um.
- E' isso exactamente que pensava, Peppe - respondi ao meu companheiro de banco, que tinha a pele tostada, os cabelos convertidos ao branco e um sorriso gentil que so 'as vezes emerge. Mais cedo, as maquinas fotograficas de peso que ambos carregavamos tinham servido de pretexto de aproximacao.
- Como explicar 'as pessoas? - prosseguia ele - As fotos nao captam...

- Pois, nao basta a imagem. E' uma experiencia - concordei eu, partilhando depois um pensamento que surgira intuitivamente - o Mekong e' uma meditacao.
Ficamos ambos satisfeitos com a palavra. Meditar era o que vinhamos fazendo desde ha horas atras. O olhar nao se cansa de perambular pelas margens de selva cerrada que levaram o Peppe a reflectir: "agora compreendo porque os americanos perderam a guerra do Vietname".
As aguas opacas denunciam correntes ferozes e remoinhos traicoeiros, que revolvem em torno das rochas vulcanicas dispersas no curso do rio. A luz e' intensa, amarela como o leito, mas o ritmo e' sereno e convida 'a introspeccao.
As barcas de madeira transportam os pescadores de rede em rede e, de quando em vez, o sossego e' rasgado pelas lanchas motorizadas que galgam o percurso inteiro em apenas cinco horas.
A viagem e' por vezes quebrada por paragens na costa, que sao providenciais para os vendedores ambulantes que, durante meia hora, tomam conta do barco e dos turistas.

- Sao os piratas do Mekong - brincava a Ramona, uma advogada holandesa de 25 anos que tirou uma sabatica para passar quatro meses nesta zona.
A agitacao momentanea sacode-nos a todos de riso, enquanto comerciantes de palmo e meio saltam de barco em barco com cestas de banana e Beerlao, a cerveja local. Ninguem diz que nao a uma crianca de sorriso docil e olhar amendoado.
Quando chegamos a Pakbeng, a aldeia onde pernoitamos a meio caminho, os musculos estao moidos e ninguem tem alojamento. A nos juntam-se o Peppe, a Ramona e outros dois viajantes: a Jennifer, uma solicitadora americana de 35 anos, que esta ha um ano a fazer a volta ao mundo em busca de si propria; e o Alain, um frances de origem chinesa que esta 'a descoberta das suas raizes no Laos, o pais que os pais abandonaram na decada de 70. Grupo mais heterogeneo nao podia haver e a conversa vai fluindo em tons de frances, ingles, italiano e espanhol.
Entre as inumeras propostas que recebemos dos aldeoes, escolhemos a do Mr. Wong, que leva cerca de 2 euros por um quarto com casa-de-banho partilhada, numa guesthouse de madeira. Os "tres minutos de distancia" inicialmente garantidos depressa se convertem em 10, mas o Alain ajuda o Peppe a carregar a maleta de rodas.
Pelo caminho, com os ombros castigados pelos 15 kg de mochila, vamos apreciando a rua unica de Pakbeng, preenchida por pensoes e restaurantes. Os barcos representam a subsistencia da aldeia, que sobrevive 'a conta dos viajantes que se aventuram por estas bandas pouco desbravadas.
O jantar nao podia ter servido de melhor introducao ao Laos: salada de papaia verde e caril de vegetais com "sticky rice", um arroz com goma suficiente para fazer bolinhas com a mao e molhar no acompanhamento, segundo a tradicao local.
O serao foi animado com a guitarra do Mr. Wong, mas nao se prolongou muito porque 'as 21h30 desligam-se os geradores da aldeia. Deitamo-nos 'a luz da vela e dormimos com os anjos sorridentes do Laos.
No dia seguinte, arrancamos cedo e passamos por um restaurante para apanhar uma baguette (heranca da ocupacao francesa) para as oito horas de viagem.
Quando finalmente avistamos Luang Prabang, o sol ja se tinha escondido por tras dos cumes das montanhas, pintando de ouro as aguas do Mekong. 'Aquela hora magica, as abobodas dos templos reluziam como um convite nobre para explorar a cidade que a Unesco classificou como Patrimonio da Humanidade em 1995.
O estatuto obriga 'a preservacao das dezenas de edificios historicos, uns religiosos, outros exemplos da arquitectura franco-vietnamita. Por esse motivo, e porque o acesso e' dificultado pelas montanhas circundantes, Luang Prabang 'e das poucas cidades asiaticas que nao sucumbiu ao transito caotico e aos arranha-ceus. O ritmo e' diametralmente oposto ao frenetismo de Bangkok ou Kuala Lumpur.
Depois de algumas buscas infrutiferas devido 'a epoca alta, conseguimos encontrar alojamento numa guesthouse com quartos revestidos a madeira, casa-de-banho privativa e higiene irrepreensivel. Tudo por 120 mil kips, cerca de 8 euros: espantoso!
Ninguem resistiu a tomar imediatamente um duche quente como balsamo contra a fadiga da viagem. Quando descemos para jantar, encontramos o Alain sentado no chao, de perna cruzada, numa roda de quatro homens que se debrucavam sobre uns pratos de comida tipica.
Juntamo-nos 'a festa e fomos brindados com rodadas de beerlao e sticky rice com carne de bufalo. Ficamos a saber que aquela era a noite de estreia da pensao e sentimo-nos honrados por partilhar ocasiao tao especial.
A delicadeza dos gestos e a bondade dos sorrisos levam-nos a questionar por que motivo o Laos e' tao desconhecido. E' certo que o regime comunista apenas ha duas decadas comecou a abrir timidamente o pais ao turismo, mas a populacao esta mais do que receptiva a estrangeiros.
Com o Alain a servir de interprete, o dono da pensao, Mr. Philaylak, fez-nos um unico pedido depois de nos desejar uma boa estadia:
- Quando voltarem para a vossa terra, digam a todos quao bonita e' Luang Prabang.

5 Comments:
A lágrima não resiste e cai... Por um lado são as saudades que apertam cada vez mais, por outro é a beleza do que estão a viver. Que sorte a nossa de podermos partilhar convosco esta experiência. Sinto-me priveligiada! Obrigada!
Um beijão
Que viagem...
O ritual de vos "ler" tornou-se viciante... (agarradito!)
Tou para ver quando acabar!
Beijos, abraços, saudades...
Madrinha: O Gonçalo manda muitos beijinhos e diz para te dizer que entrou para o Karaté, e que agora já ninguém pode dizer que ele não faz desporto.
AH!AH!AH!
Saudade...saudade...
Ruizinho & Companhia ilimitada
Quando a escrita desperta as imagens...... dispenso as fotografias. Vi, cheirei e meditei convosco. Fiquei com vontade de conhecer o Laos, de percorrer o Mekong numa barcaça de madeira do nascer ao pôr do sol e de quando anoitecer e eu chegar a casa do Mr.Phylailak dizer:" Eu sou uma das Mães"!
Um beijo grande com toda a ternura Mami
Quase se apalpa o crescendo da aventura, tão deliciosamente rica é a descrição. Tem cor, tem som, tem cheiro. Tem perfume.
Diz o Ruizinho: "Tou pra ver quando acabar!". É. Nessa altura sentiremos todos um vazio, vós mais que todos nós. Por isso há que não pensar no amanhã. Que importa? Isto é para ser vivido intensamente aqui e agora. Este instante não é um grão de areia, é uma pérola. E só se vive uma vez. Não volta mais! Mesmo que um dia possais ou queirais repetir a aventura, quiçá com alterações ou melhoramentos, fruto da experiência já vivida ...não será o mesmo.
Por isso ... enchei bem o peito com a brisa que vos afaga, registai bem a força deste momento, para que ele perdure para sempre. Assim permanecerá na gaveta da memória... como recordação muito doce de uma vivência que vos vai marcar para toda a vida.
Quero ver as fotos todas quando chegarem. einh?!
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