A relva cresce sozinha
"Do nothing.
Sit quietly.
Spring comes and
grass grows by itself."
A inscricao na ardosia do restaurante sobre estacas, a beira-rio, captava com precisao a serenidade daquela manha de sabado em Hoi An.
Estavamos sentados no estrado de madeira, em sofas de bambu pintado a branco, com almofadoes a condizer, rodeados de potes de plantas e lanternas brancas penduradas do tecto de palhinha.

Apreciavamos as palmeiras reflectidas no leito do rio Thu Bon, enquanto aguardavamos o pequeno-almoco: baguete francesa com sumo de laranja e cenoura.
O restaurante fica na estrada que leva a praia de Cua Dai, um dos roteiros mais populares de Hoi An, e tem o mesmo nome que os templos hindus de My Son, outro dos motivos que traz os turistas a esta vila proxima de Da Nang, a meio-caminho entre Hanoi e Ho Chi Minh. Foram construidos pelo povo Cham no seculo IV e destruidos pelos bombardeamentos americanos no seculo XX. Hoje apenas restam 20 dos 70 iniciais.
Mas a principal atraccao sao as centenas de alfaiates que, de um dia para o outro e por tuta e meia, fazem fatos a medida do cliente com os melhores materiais da regiao: sedas, brocados, las, algodoes e linhos.
Sao eximios em copiar modelos a partir de uma peca de roupa trazida pelo cliente ou de uma revista cor-de-rosa ou catalogo importado, como o da saudosa Burda.
Alias, ‘a semelhanca da Tailandia, nao e’ so na roupa que se ve a queda para as falsificacoes: e’ tambem nas malas, nos sapatos, nos relogios e ate nos livros (codigo de barras incluido).
O colorido dos tecidos expostos nos passeios, ao lado dos sapatos exoticos feitos por encomenda, dao a Hoi An um tom artistico, que e’ reforcado pelas galerias de arte que proliferam no coracao da vila.
As fachadas historicas, classificadas pela Unesco como Patrimonio da Humanidade, recordam os tempos antigos em que os colonos franceses dividiam este entreposto com os comerciantes chineses.
E’ numa destas casas que fica o Indochine, a loja onde refizemos o nosso guarda-roupa por pouco mais do que 300 euros. A carne e’ fraca e tambem nos sucumbimos ‘a tentacao. E’ rara a oportunidade de ter um fato novo feito ao milimetro por 35 dolares.
O problema e’ que, cada vez que la voltavamos para acertar um pormenor, perdiamos a cabeca com outro tecido deslumbrante e encomendavamos mais um vestido, uma camisa ou umas calcas.
As costureiras, claro, nao se importavam nada com o volume de trabalho. Alem disso, nao demorou muito para se renderem ao charme latino do Ricardo. Riam-se para ele, abracavam-no e ate cantarolavam.

No fim, ficamos todos amigos e acabamos por ser convidados para jantar na nossa penultima noite em Hoi An.
Fomos recebidos no restaurante Bale Well pela Mai, uma vietnamita de cabelo ruivo e labios pintados, com um olhar vivido e um riso provocante. Sentamo-nos em bancos minusculos de plastico para degustar espetadas de porco com salada e ervas, enroladas em papel de arroz e molhadas numa pasta castanha. Delicioso!
Enquanto o molho nos escorria pelas maos, a Kiki, dona do Indochine, explicou-nos que tem cinco mulheres a trabalhar com ela, mais 15 costureiros na oficina. A instrucao e’ feita na escola, ja que o corte-e-costura, tal como a biologia ou o ingles, e’ uma disciplina obrigatoria. Quem quiser aprofundar os conhecimentos, tem que arranjar trabalho como aprendiz para aprender com os mestres.
A refeicao foi muito instrutiva para nos, alem de ter sido uma honra receber o convite. Ajudou a desfazer a imagem que tinhamos dos vietnamitas, para a qual contribuiram os comentarios de todos os estrangeiros que conhecemos.
A primeira impressao que se tem e’ que, para os vietnamitas, os turistas sao simplesmente uma oportunidade de ganhar uns dolares. Por isso, ha que tentar explorar o maximo possivel.
Nos proprios ficamos com essa sensacao devido a diversos episodios, incluindo o do fulano que nos tentou alugar uma moto enquanto passavamos a pe pelo seu estabelecimento. Ate aqui nada de mal, so que era o mesmo que nos tinha alugado uma Honda na vespera, por dois dias.
Outra cena habitual era estarmos de moto, em movimento, e aproximar-se uma pessoa noutra moto para nos tentar vender uma excursao qualquer. E na praia, ha’ um exercito de vendedores ambulantes que se plantam de cocoras ‘a beira dos estrangeiros e nao arredam pe ate conseguirem impingir um dos variadissimos produtos que tem para oferta: desde uma depilacao feita com linha de algodao a uma pedicure, uma manga ou uma pastilha elastica.
A situacao que mais nos incomodou foi a de uma menina de 12 anos que estava a brincar na areia, acabada de sair das aulas (ainda trazia a camisa branca e as calcas azuis do uniforme).
Foi-se aproximando discretamente de nos ate conseguir pedir uma caneta. Julgando que era a sede de conhecimento que se manifestava em tao tenra idade, ficamos radiantes e logo tiramos o bloco para podermos comunicar por escrito.
Mas assim que lhe oferecemos a caneta, chegou-se ate ‘a francesa que estava connosco e pediu-lhe, com um sorriso bem treinado, que lhe comprasse uma Coca-Cola.
A natureza aqui e’ generosa, a terra e’ fertil e os campos sao abundantes. Ha carencias, mas ninguem passa fome. Nao nos pareceu que houvesse necessidade para andar a pedir. (Mas estrangeiro igual a dolar.)
Tentamos compreender esta mentalidade para que nao partissemos com uma imagem deturpada. No Laos habituamo-nos a gentileza espontanea das pessoas; aqui surpreendeu-nos a dureza de algumas e os risos de troca que por vezes se escutam.
Pensamos nas feridas da guerra, que poderao ter levado as pessoas a erguer um muro de defesa contra os estrangeiros. O Ricardo chegou a comprar um livro do Gen. Van Tien Dung, antigo Chefe de Estado Maior do Exercito do Vietname do Norte, que relata a libertacao do Sul. Sao varias as referencias aos “americanos e seus lacaios”.
Nas conversas, raramente se menciona o conflito contra os Estados Unidos, mas a imagem mais forte que levamos do Vietname e’ a de um velhote estropiado que nos remou ‘a volta do rio e que mergulhou o dedo na agua para escrever sobre a tabua da piroga: “1972” – a data em que foi atingido pelos estilhacos de uma bomba americana.
E’ talvez a mesma aversao aos estrangeiros que explica a quase extincao do frances. Ao contrario das antigas colonias em Africa, praticamente ninguem aqui fala a lingua de Victor Hugo.
Em Hanoi encontramos uma galleria que vendia posters de propaganda que traduzem esse espirito incutido pelo nacionalista Ho Chi Minh: “lutaremos ate expulsar o ultimo dos invasores”.
A sombra do Tio Ho permanence, de resto, omnipresente: nos retratos afixados em cada loja, nas bandeiras vermelhas icadas ‘a porta de cada casa e nos megafones pendurados no meio dos arrozais para endoutrinar os camponeses durante a faina.
O heroi da libertacao ja nao viveu para ver realizado o seu sonho; morreu em 1969, seis anos antes da unificacao do Vietname. Acabou embalsamado dentro de um mausoleu de arquitectura sovietica, contrariamente a vontade expressa no seu testamento: ser cremado para que as cinzas fossem guardadas em tres urnas e colocadas no Norte, no Centro e no Sul do pais.
Ficamos contentes por termos ficado uma semana. Deu-nos tempo suficiente para explorarmos por nos proprios e para conhecermos algumas pessoas, como Kiki, a costureira, que nos acarinharam para alem da cor do dinheiro.
Foi o caso tambem do rapaz que concertou o furo no pneu da nosso moto alugada. Quando lhe perguntamos quanto era, respondeu-nos apenas o que quisessemos dar. Ou a velhota da tasca onde jogavamos bilhar, que aplaudia e ria deliciada cada vez que a Cristiana acertava uma bola. E tambem a Thanh, a rapariga da recepcao do hotel, que tinha 27 anos e o curso de Economia tirado em Da Nang.
Os sete dias serviram tambem para tratarmos de afazeres mundanos, como por roupa a lavar, fazer uma coleccao de fotos de lanternas tradicionais, aprender a andar de moto,

namorar ‘a beira-rio e pintar o cabelo.
E’ verdade, pintar o cabelo. De vermelho arruivado (o da Cristiana, isto e’, do Ricardo so se fosse a barba que ele tem deixado crescer). Depois de colocar a tinta, transportaram-me para uma marquesa, onde usaram o pretexto de lavar a cabeca para me dissecarem com um invejavel rigor antropologico: os sinais no peito, o tamanho dos seios, os pelos nos bracos, as sardas no rosto, a cana do nariz, o brinco na narina, o desenho da sobrancelha, e sei la que mais.
Senti-me tao impotente quanto um explorador dentro do caldeirao dos canibais. Mas devo-me ter portado bem porque no fim tive direito a uma massagem facial merecidamente repousante.
De resto, a maior parte dos seroes foi passada na companhia da reduzida comunidade francesa de Hoi An. Em Luang Prabang, no Laos, tinhamos conhecido duas raparigas que moram na vila e nos deram o seu contacto para o caso de passarmos por ca. Era um grupo eclectico: a enfermeira Dorothee e o arquitecto Jean Francois, que ja viveram dois anos nos Camaroes; a enologa Violaine, que trabalha numa distribuidora de vinhos; a Veronique, manager de uma boutique com lojas em Hoi An e Ho Chi Minh; e os artistas plasticos Bernard e Sandrine, que se mudaram recentemente para Ho Chi Minh.
– A imagem que tenho daqui e’ o fervilhar de gente – dizia a mae do Bernard, que estava de visita durante duas semanas. – Noutros lugares ha este ou aquele monumento, mas aqui e’ o conjunto.
– E’ a propria experiencia – concordava eu. A conversa decorria ao som de Cesaria Evora, no bar Lounge, propriedade de outro frances, o Daniel.
– Exactamente. Nao e’ o museu A ou o mausoleu do Ho Chi Minh – continuava ela – Para mim sao os magotes de pessoas a comerem de cocoras nas esquinas dos passeios, ou os canais de Saigon com as casas de estacas e as pessoas a cozinharem na mesma agua em que defecam, e os chapeus de palha em triangulo, no meio do verde brilhante dos arrozais.
Sit quietly.
Spring comes and
grass grows by itself."
A inscricao na ardosia do restaurante sobre estacas, a beira-rio, captava com precisao a serenidade daquela manha de sabado em Hoi An.
Estavamos sentados no estrado de madeira, em sofas de bambu pintado a branco, com almofadoes a condizer, rodeados de potes de plantas e lanternas brancas penduradas do tecto de palhinha.

Apreciavamos as palmeiras reflectidas no leito do rio Thu Bon, enquanto aguardavamos o pequeno-almoco: baguete francesa com sumo de laranja e cenoura.
O restaurante fica na estrada que leva a praia de Cua Dai, um dos roteiros mais populares de Hoi An, e tem o mesmo nome que os templos hindus de My Son, outro dos motivos que traz os turistas a esta vila proxima de Da Nang, a meio-caminho entre Hanoi e Ho Chi Minh. Foram construidos pelo povo Cham no seculo IV e destruidos pelos bombardeamentos americanos no seculo XX. Hoje apenas restam 20 dos 70 iniciais.
Mas a principal atraccao sao as centenas de alfaiates que, de um dia para o outro e por tuta e meia, fazem fatos a medida do cliente com os melhores materiais da regiao: sedas, brocados, las, algodoes e linhos.
Sao eximios em copiar modelos a partir de uma peca de roupa trazida pelo cliente ou de uma revista cor-de-rosa ou catalogo importado, como o da saudosa Burda.
Alias, ‘a semelhanca da Tailandia, nao e’ so na roupa que se ve a queda para as falsificacoes: e’ tambem nas malas, nos sapatos, nos relogios e ate nos livros (codigo de barras incluido).
O colorido dos tecidos expostos nos passeios, ao lado dos sapatos exoticos feitos por encomenda, dao a Hoi An um tom artistico, que e’ reforcado pelas galerias de arte que proliferam no coracao da vila.
As fachadas historicas, classificadas pela Unesco como Patrimonio da Humanidade, recordam os tempos antigos em que os colonos franceses dividiam este entreposto com os comerciantes chineses.
E’ numa destas casas que fica o Indochine, a loja onde refizemos o nosso guarda-roupa por pouco mais do que 300 euros. A carne e’ fraca e tambem nos sucumbimos ‘a tentacao. E’ rara a oportunidade de ter um fato novo feito ao milimetro por 35 dolares.
O problema e’ que, cada vez que la voltavamos para acertar um pormenor, perdiamos a cabeca com outro tecido deslumbrante e encomendavamos mais um vestido, uma camisa ou umas calcas.
As costureiras, claro, nao se importavam nada com o volume de trabalho. Alem disso, nao demorou muito para se renderem ao charme latino do Ricardo. Riam-se para ele, abracavam-no e ate cantarolavam.

No fim, ficamos todos amigos e acabamos por ser convidados para jantar na nossa penultima noite em Hoi An.
Fomos recebidos no restaurante Bale Well pela Mai, uma vietnamita de cabelo ruivo e labios pintados, com um olhar vivido e um riso provocante. Sentamo-nos em bancos minusculos de plastico para degustar espetadas de porco com salada e ervas, enroladas em papel de arroz e molhadas numa pasta castanha. Delicioso!
Enquanto o molho nos escorria pelas maos, a Kiki, dona do Indochine, explicou-nos que tem cinco mulheres a trabalhar com ela, mais 15 costureiros na oficina. A instrucao e’ feita na escola, ja que o corte-e-costura, tal como a biologia ou o ingles, e’ uma disciplina obrigatoria. Quem quiser aprofundar os conhecimentos, tem que arranjar trabalho como aprendiz para aprender com os mestres.
A refeicao foi muito instrutiva para nos, alem de ter sido uma honra receber o convite. Ajudou a desfazer a imagem que tinhamos dos vietnamitas, para a qual contribuiram os comentarios de todos os estrangeiros que conhecemos.
A primeira impressao que se tem e’ que, para os vietnamitas, os turistas sao simplesmente uma oportunidade de ganhar uns dolares. Por isso, ha que tentar explorar o maximo possivel.
Nos proprios ficamos com essa sensacao devido a diversos episodios, incluindo o do fulano que nos tentou alugar uma moto enquanto passavamos a pe pelo seu estabelecimento. Ate aqui nada de mal, so que era o mesmo que nos tinha alugado uma Honda na vespera, por dois dias.
Outra cena habitual era estarmos de moto, em movimento, e aproximar-se uma pessoa noutra moto para nos tentar vender uma excursao qualquer. E na praia, ha’ um exercito de vendedores ambulantes que se plantam de cocoras ‘a beira dos estrangeiros e nao arredam pe ate conseguirem impingir um dos variadissimos produtos que tem para oferta: desde uma depilacao feita com linha de algodao a uma pedicure, uma manga ou uma pastilha elastica.
A situacao que mais nos incomodou foi a de uma menina de 12 anos que estava a brincar na areia, acabada de sair das aulas (ainda trazia a camisa branca e as calcas azuis do uniforme).
Foi-se aproximando discretamente de nos ate conseguir pedir uma caneta. Julgando que era a sede de conhecimento que se manifestava em tao tenra idade, ficamos radiantes e logo tiramos o bloco para podermos comunicar por escrito.
Mas assim que lhe oferecemos a caneta, chegou-se ate ‘a francesa que estava connosco e pediu-lhe, com um sorriso bem treinado, que lhe comprasse uma Coca-Cola.
A natureza aqui e’ generosa, a terra e’ fertil e os campos sao abundantes. Ha carencias, mas ninguem passa fome. Nao nos pareceu que houvesse necessidade para andar a pedir. (Mas estrangeiro igual a dolar.)
Tentamos compreender esta mentalidade para que nao partissemos com uma imagem deturpada. No Laos habituamo-nos a gentileza espontanea das pessoas; aqui surpreendeu-nos a dureza de algumas e os risos de troca que por vezes se escutam.
Pensamos nas feridas da guerra, que poderao ter levado as pessoas a erguer um muro de defesa contra os estrangeiros. O Ricardo chegou a comprar um livro do Gen. Van Tien Dung, antigo Chefe de Estado Maior do Exercito do Vietname do Norte, que relata a libertacao do Sul. Sao varias as referencias aos “americanos e seus lacaios”.
Nas conversas, raramente se menciona o conflito contra os Estados Unidos, mas a imagem mais forte que levamos do Vietname e’ a de um velhote estropiado que nos remou ‘a volta do rio e que mergulhou o dedo na agua para escrever sobre a tabua da piroga: “1972” – a data em que foi atingido pelos estilhacos de uma bomba americana.
E’ talvez a mesma aversao aos estrangeiros que explica a quase extincao do frances. Ao contrario das antigas colonias em Africa, praticamente ninguem aqui fala a lingua de Victor Hugo.
Em Hanoi encontramos uma galleria que vendia posters de propaganda que traduzem esse espirito incutido pelo nacionalista Ho Chi Minh: “lutaremos ate expulsar o ultimo dos invasores”.
A sombra do Tio Ho permanence, de resto, omnipresente: nos retratos afixados em cada loja, nas bandeiras vermelhas icadas ‘a porta de cada casa e nos megafones pendurados no meio dos arrozais para endoutrinar os camponeses durante a faina.
O heroi da libertacao ja nao viveu para ver realizado o seu sonho; morreu em 1969, seis anos antes da unificacao do Vietname. Acabou embalsamado dentro de um mausoleu de arquitectura sovietica, contrariamente a vontade expressa no seu testamento: ser cremado para que as cinzas fossem guardadas em tres urnas e colocadas no Norte, no Centro e no Sul do pais.
Ficamos contentes por termos ficado uma semana. Deu-nos tempo suficiente para explorarmos por nos proprios e para conhecermos algumas pessoas, como Kiki, a costureira, que nos acarinharam para alem da cor do dinheiro.
Foi o caso tambem do rapaz que concertou o furo no pneu da nosso moto alugada. Quando lhe perguntamos quanto era, respondeu-nos apenas o que quisessemos dar. Ou a velhota da tasca onde jogavamos bilhar, que aplaudia e ria deliciada cada vez que a Cristiana acertava uma bola. E tambem a Thanh, a rapariga da recepcao do hotel, que tinha 27 anos e o curso de Economia tirado em Da Nang.
Os sete dias serviram tambem para tratarmos de afazeres mundanos, como por roupa a lavar, fazer uma coleccao de fotos de lanternas tradicionais, aprender a andar de moto,

namorar ‘a beira-rio e pintar o cabelo.
E’ verdade, pintar o cabelo. De vermelho arruivado (o da Cristiana, isto e’, do Ricardo so se fosse a barba que ele tem deixado crescer). Depois de colocar a tinta, transportaram-me para uma marquesa, onde usaram o pretexto de lavar a cabeca para me dissecarem com um invejavel rigor antropologico: os sinais no peito, o tamanho dos seios, os pelos nos bracos, as sardas no rosto, a cana do nariz, o brinco na narina, o desenho da sobrancelha, e sei la que mais.
Senti-me tao impotente quanto um explorador dentro do caldeirao dos canibais. Mas devo-me ter portado bem porque no fim tive direito a uma massagem facial merecidamente repousante.
De resto, a maior parte dos seroes foi passada na companhia da reduzida comunidade francesa de Hoi An. Em Luang Prabang, no Laos, tinhamos conhecido duas raparigas que moram na vila e nos deram o seu contacto para o caso de passarmos por ca. Era um grupo eclectico: a enfermeira Dorothee e o arquitecto Jean Francois, que ja viveram dois anos nos Camaroes; a enologa Violaine, que trabalha numa distribuidora de vinhos; a Veronique, manager de uma boutique com lojas em Hoi An e Ho Chi Minh; e os artistas plasticos Bernard e Sandrine, que se mudaram recentemente para Ho Chi Minh.
– A imagem que tenho daqui e’ o fervilhar de gente – dizia a mae do Bernard, que estava de visita durante duas semanas. – Noutros lugares ha este ou aquele monumento, mas aqui e’ o conjunto.
– E’ a propria experiencia – concordava eu. A conversa decorria ao som de Cesaria Evora, no bar Lounge, propriedade de outro frances, o Daniel.
– Exactamente. Nao e’ o museu A ou o mausoleu do Ho Chi Minh – continuava ela – Para mim sao os magotes de pessoas a comerem de cocoras nas esquinas dos passeios, ou os canais de Saigon com as casas de estacas e as pessoas a cozinharem na mesma agua em que defecam, e os chapeus de palha em triangulo, no meio do verde brilhante dos arrozais.

11 Comments:
muito muito bom!
Fil!!
Foste mais rapido desta vez. Tentarei ser o mais rapido no proximo post...
e as fotosjuje? podiam ter mostrado a nova cor de cabelo da Cristiana, se bem que nem é necessário.
E assim continua a vossa viagem, uma grande aventura a seguir à outra... Aproveitem bem!
Beijinhos grandes
Oi, filhotes!
Lindíssimo, este vosso texto. De resto, na sequência de outros, que nos vão deliciando.
Hoje nem quero falar de quanto eu gostaria de estar a viver essa experiência.
Quero é dizer-vos que a mensagem que eu capto do que escreveis é a de como é belo o Mundo, como são lindas as pessoas. Lá no fundo , no íntimo de cada um, não há grandes diferenças. Exteriormente, podemos ser brancos, amarelos ou pretos, de cabelo liso ou encaracolado, de cor natural ou pintado. Mas é comum a vontade de conhecer, de partilhar, de agradar. Este globo é uma aldeia global que merece ser vista, apreciada e amada. Só é pena que os senhores do Mundo teimem em explorar as diferenças e destruir o que é belo.
Já me interrogo que planos tereis para transmitir "urbi et orbi" o que estais a viver.
Uma coisa tenho como certa é já o disse antes: nunca mais voltareis a ser os mesmos. Ainda bem!!!
Beijões enormes
Feliz dia dos namorados!!!
Que beleza...só imagino as páginas do livro que irão escrever, com os desenhos e as fotos...e o letreiro "BEST SELLER" (nem que seja nas nossas casas!)
Como disse o vosso Pai...nunca mais serão os mesmos!
Beijos e abraços
Ruizinho & Companhia ilimitada
PS: Madrinha...prepara-te para as lições de Karate...Aproveita o facto de estares no Oriente!
o vosso arrozal já é o meu desktop...
continuem a perambular!
Olá amigos, entrei aqui só para dizer que não esqueci de vocês. Quero garantir logo meu lugar na fila de autógrafo do livro que essa viagem maravilhosa vai dar origem. Recomendo pra Cristiana a depilação com linha, que dói pra caramba, mas deixa a pele maravilhosa. Um abraço saudoso da amiga carioca.
Ca estou a espera da descricao dos templos.
Desta vez vieram poucas fotografias.
Esse cabelo vermelho, so falta a Aguia depenada, gostava de ver nao a aguia, mas tu meu borracho vermelho.
Continuem a gozar que nos estamos convosco.
Um beijo grande para os dois
Maria da Luz e Antonio
Gostei tanto da mensagem do Pá, que fala sempre pelos dois e vice-versa, que não quero acrescentar mais nada.
Cheguei agora ao estado" Do nothing, sit quietly", que em búlgaro se diz- pehtuk ao fim da tarde, com o cabelo da mesma cor. Estou desejosa por espreitar o teu, minha Aninhas. Em Abu Dhabi a Parisa (que era vietnamita )também fazia a depilação com uma linha de algodão que prendia entre os dedos polegar e indicador de cada mão e fazia depois girar a uma velocidade vertiginosa. Mas como diz a Márcia doía pra caramba.
O Pai parte para Dubai e Muscat no domingo!!!!! Se fosse com uma semana de atraso... eu podia acompanhá-lo aproveitando os feriados de Carnaval. Assim... vamos para o Algarve quando ele regressar, de 25Fev a 4 deMarço. Mas temos net no quarto para falar convosco. Um beijo grande filhotes da vossa Mami
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