2006-02-20

Historia de um orfao revoltado

Ele nao e' nenhum santo - "nao sou nenhuma Madre Teresa", ele proprio o assume - mas a verdade e' que passou o Natal de 2005 a trabalhar como voluntario num orfanato de Phnom Penh, a capital do Camboja.

Alto, moreno e de olhos azuis, D. e' americano e tem uma barba curta que comeca a acusar os 40 anos completados ha pouco.

- Foi muito mais aquilo que recebi do que aquilo que dei - confidenciou-nos, dando eco ao sentimento de grande parte das pessoas que se dedicam ao voluntariado.

Financiada pelo governo e apoiada por diversas ONG, a instituicao acolhe maioritariamente criancas deficientes abandonadas pelos pais, que as veem como um castigo dos deuses por algum erro do passado.

D. nao tem pudor em revelar que foi por motivos egoistas que decidiu passar la um mes: por um lado, era uma desculpa solida para fugir 'a febre do Natal em casa; por outro, podia ser uma boa fonte de informacao para o romance que esta a escrever.

- E' sobre um orfao revoltado - contou-nos enquanto tomavamos uma caipiroska no Happy Eagle, um bar na praia de Occheuteal, em Sihanoukville - O pior e' que cheguei la' e nao encontrei uma unica crianca que parecesse infeliz, muito menos revoltada.

D. tem aquele tipo de humor de quem e' capaz de rir de si proprio e, por conseguinte, nao se leva demasiado a serio.

Nao e' escritor. A escrita aconteceu-lhe um dia, 'as 7h da manha, em Bangkok. Fazia dois anos que vivia no meio do frenesim da capital tailandesa, fazendo trabalho de "freelance" para revistas americanas de imobiliario que precisam de material sobre o Sudeste Asiatico. Mudou-se para la depois de ter passado quatro anos em Osaka a aprender japones e a fazer vendas.

- Um dia acordei, pus-me em frente ao computador e despejei para la todas as minhas frustracoes. So parei ja era uma da tarde - recordou com satisfacao - Depois, quando li o que tinha ali, pensei que talvez fosse uma boa base para a personagem de um livro.

- Ah! Entao es tu o orfao revoltado! - julgavamos que o tinhamos apanhado.

- Nao, nada disso.

- Mas tens um olhar orfao - a provocacao serviu para ver se revelava uma faceta mais intima, menos "blase", mas nao funcionou. So mais tarde, entre umas fatias de pizza, e' que nos cedeu alguns pormenores sobre a sua vida pessoal. Nessa altura, ja nos lhe tinhamos contado a historia dos nossos encontros e desencontros ate ficarmos juntos.

Conhecemos D. entre Siem Reap e Sihanoukville, naquela que foi uma das melhores viagens de autocarro que fizemos nesta regiao.

A primeira, entre Bangkok e Chiang Mai, foi um pesadelo cor-de-rosa, da mesma cor das cortinas do veiculo e do cabelo de um dos dois "ladyboys" que serviram de assistentes de bordo durante as 10 horas do trajecto.

Os "ladyboys" sao um fenomeno muito tailandes e conseguem enganar muito turista que visita esta regiao numa senda hedonista e depois descobre, como num relato delicioso que ouvimos passado no Rio de Janeiro que, afinal, a dama "tem chicote". Sao alvo de chacota por parte do resto da populacao, que se deleita a imitar o seu jeito efeminado.

A certa altura na nossa viagem de iniciacao aos autocarros asiaticos, o meu ar-condicionado avariou-se e comecou a gotejar, interrompendo assim qualquer tentativa de pregar olho. Depois de chamarmos um dos ladyboys, seguiu-se um dialogo que procuraremos transcrever com toda a fidelidade:

- This broken. Water falling. Not good. - apontei para a saida de ar e para as manchas de agua na manta que me cobria, ao mesmo tempo que emitia a mensagem em forma telegrafica, na esperanca de me fazer entender.

- Water? - perguntou o ladyboy, colocando la a mao para atestar a veracidade da acusacao, para logo concluir - water no!

- Water yes! - contestei, surpreendida com a ousada negacao dos factos.

- Water noooooooo - respondeu o/a assistente, em tom meloso e arrastado.

- Water yes!

- Water nooooooo.

- Water yes! - a surpresa depressa se transformou em indignacao e ameacava passar a colera.

- Water nooooooo - insistia a borboleta.

- Hey! This is not good! - os meus olhos esbogalharam-se numa tentativa de enfatizar a
seriedade do assunto, agravada pelo adiantado da hora.

Nisto, a senhora tailandesa do banco do lado, que compreendera o dilema, sugeriu que trocassemos de lugar com um senhor que viajava desacompanhado no banco de tras. Pareceu-nos uma boa ideia, mas havia um pequeno problema: isso obrigaria o ladyboy a sentar-se no meu lugar, o unico que restava livre.

Por essa altura, todos os passageiros em nosso redor ja se tinham envolvido na altercacao e - alivio! - tomado o nosso partido. A ultima imagem que guardamos e' do ladyboy enrolado na sua manta, de olhar fumegante, enfiando papeis na saida de ar numa tentativa (frustrada) de estancar os pingos de agua.

- Water? Noooooo - pensei eu, mas contive-me.

A segunda viagem de autocarro que fizemos tambem foi de noite e tambem foi um pesadelo, mas por motivos diferentes. Foi no Laos, entre Luang Prabang e Vientiane, a capital.

Desta vez, o problema foi o trajecto em si. Se dissermos que sao 10 horas para 300 km (a mesma distancia que de Lisboa ao Porto) ja da uma ideia. Nao ha uma recta com mais de 100 metros; a estrada contorna incessantemente as serras do interior do Laos, e encontra-se num estado deploravel.

Apesar disso, o condutor, alheio aos buracos no pavimento e 'a estreiteza da via, conseguia ainda
assim o impensavel: ultrapassar outro autocarro. Fomos chocalhados, chocalhados, chocalhados e chegamos feitos omolete.

Dadas estas duas experiencias mais ou menos aterradoras, a viagem no Camboja foi um sossego. Espaco razoavel para as pernas, bancos reclinaveis "ma non troppo" (de contrario, levamos com o da frente em cima dos joelhos) e decoracao tipicamente pueril: cortinados em tons pastel, com estampados a dizer "luv bug", "peace smile" e "groovy flowers". Um cenario idilico que nos permitiu dormitar entre Siem Reap e Phnom Penh, onde almocamos e trocamos de autocarro para chegar a Sihanoukville ao final da tarde.

Estavamos a precisar do descanso. Nao so nos tinhamos levantado 'as 5h30 para apanhar o autocarro, como na vespera despertaramos 'as 4h30 para podermos aproveitar em pleno o unico dia que tinhamos reservado para os templos de Angkor Wat.

O tuk tuk (um banco para dois atrelado a uma moto) apanhou-nos 'as 5h10 para fazermos o percurso de 9 km entre a vila e o vasto complexo religioso construido a partir do seculo IX, altura em que a capital do Imperio Khmer ali estava instalada.

O frio da madrugada manteve-nos despertos durante o caminho, mas o cheiro a orvalho apenas agucou o apetite. Porem, assim que avistamos o contorno dos templos, a ideia de pequeno-almoco esfumou-se rapidamente na escuridao do crepusculo.

Sem lanterna para iluminar o caminho, atravessamos timidamente a ponte sobre o fosso que rodeia, como um castelo, o primeiro edificio. Seguimos intuitivamente os outros visitantes que nos tinham antecipado ate chegarmos a dois lagos de nenufares, que se estendem como um tapete precioso 'a entrada de Angkor Wat.

O nascer do Sol e' a altura mais nobre do dia para apreciar este templo em todo o seu esplendor. O reflexo das torres ornamentadas no espelho de agua parece uma sombra chinesa em papel de seda laranja.

Laranja, cor de incenso, de espiritualidade.

E se ali predomina a tonalidade dos monges, o que impressiona em Bayon e' a serenidade dos sorrisos das divindades reproduzidas nas pedras. Visto de longe, o templo parece uma montanha de granito. Foi preciso escalar umas dezenas de degraus para sermos recebidos pelos rostos enigmaticos que animam os blocos monoliticos.

Em Ta Phrom e' o verde que dita as regras. As autoridades do Camboja, com o apoio da Unesco, optaram por nao preservar esse templo para que os visitantes pudessem perceber melhor o passar dos seculos. As raizes das arvores que devoram os muros parecem falar uma lingua antiga, para nos desconhecida. A lingua de um Tempo em que a Natureza era Mae.

8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Agora falta o resto sobre o templo e as fotografias. "Este Senhor e exigente !" dizem eles, mas cada um e como e e ha que aceita lo.
Continuem que estou a gostar!
Por ca tudo bem seguindo o caminho.
Um beijo para os dois
Maria da Luz e Antonio

12:22 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Lembrem-se da Profecia Celestina... A energia nesses sítios deve fluir com intensidade. Aproveitem.

Beijinhos grandes

7:36 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

o anonymous anterior sou eu... :) Oops!

7:37 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Tenho seguido com bastante interesse as vossas aventuras. Eu adoro viajar e revejo-me em muitas das histórias que são relatadas aqui. Tenho especial atração pelo Oriente e este ano irei revisitar a China.
Relativamente à vossa viagem, só acho que deve estar a ser muito cansativa, com pouco tempo para apreciar cada local e muitos kms para percorrer em pouco tempo.

Descobri-vos através da minha colega e vossa amiga Patrícia e ler as vossas histórias tem sido um prazer para mim.

Um abraço e boa continuação de viagem.

Ricardo Lopes

7:56 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Filhotes,
É tão bom viajar convosco por sítios onde a " língua de um Tempo em que a Natureza era Mãe" ainda se fala e encontrar os "D" que acordam o melhor que há em nós e nos fazem acreditar num mundo melhor!
Estou agora ansiosa por notícias da Índia. Os jornais de ontem falavam em centenas de pessoas com sintomas gripais suspeitos nas regiões onde o H5N1 foi detectado em aves domésticas, nomeadamente em Navapur e no estado de Gujarat. É mesmo melhor absterem-se de carne de aves e derivados.
As vossas viajens de autocarro recordam-me as palavras do James Fox " homecomings are half of what travels are about" e sorrio ao imaginar como a vossa caminha vos vai saber bem!
Um beijo agarrado. A vossa Mami

12:02 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Olá desde hoje.
Em jeito de continuação da nossa conversa, aproveitem bem cada momento dessa "Grande Lua de Mel".
Nada de água sem ser engarrafada nem saladas de bichos vivos ou semi-mortos.

12:48 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Realmente a Mã tem razão: o que, de nós dois, escreve primeiro, escreve pelos dois...
Desta vez ela antecipou-se e agora ... que é que eu vou dizer?
Mas é isso mesmo. Não vou dizer nada. Fico em silêncio contemplativo...
Saboreando a vossa descrição deliciosa, fecho os olhos e sinto-me regressar a experiências que já vivemos. O cheiro, a cor, os ruídos, o pulsar forte, mas sereno, da Natureza que longe de ter parado no tempo, nos mostra o filme da sua evolução. Ta Phrom - que idéia espectacular: preservar não preservando.
Beijões grandes

11:43 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Very nice site! »

1:10 a.m.  

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