Bombaim
Uff! Ja ca estamos.
Apos um voo de pouco mais de uma hora chegamos a Bangkok vindos de Phnom Penh por volta das 9h30, onde esperamos ate as 17h20 por nova ligacao que nos conduziu a Bombaim.
Ou seja, a brincadeira traduziu-se em 16 horas, tres paises e mais uma infeccao estomacal - desta vez numa actuacao a solo da Cristiana. E tudo em apenas um so dia!! Eh obra. Perguntem ah Cristiana que disso percebe ela cada vez mais e melhor do que eu.
Com tanta viagem e "jet lag" – sim, a vertiginosa diferenca horaria entre Bangkok e Bombaim de 1h30m deu cabo de nos – ja nos sentimos uns verdadeiros "globe trotters". Mas as verdadeiras emocoes do dia ainda estavam para vir.
Sabiamos que ia ser dificil a chegada ah India. Muitos viajantes que encontramos no nosso percurso alertaram-nos para virmos mentalmente bem preparados para o choque cultural, higienico e demografico.
Afinal de contas este pais do tamanho do Brasil tem uma populacao quase 10 vezes superior a do nosso pais irmao.
A Cristiana ja andava num nervoso miudinho ha pelo menos dois dias…
Ca entre nos, talvez tambem tenha sido isso que a atirou para a casa de banho. Sinceramente, nao sei. Mas como andamos em processo de troca de personalidade, se calhar foi apenas uma desculpa para ela ir ter com a sua - cada vez mais – melhor amiga: a sanita. Confesso que comeco ja a sentir uma pontada de ciumes. Da sanita, claro.
No que me toca, ja tinha tido alguma experiencia deste tipo numa passagem curta – de uma semana - pelo Quenia ha uns bons cinco anos. Nessa altura, umas incursoes por Mombassa – a segunda maior cidade a seguir a Nairobi - e alguns dos seus mercados tinham sido um choque ao (meu) sistema.
Por isso, enquanto a Cristiana andava no seu nervoso miudinho, eu ia tentando acostumar-me ah ideia, pensando que a India deveria ser qualquer coisa como Mombassa. "Estou preparado para tudo", pensara eu naquela "modestia" que me voces me conhecem. Mas nao estava...
Aterramos com uma temperatura de 28,5 graus a cumprimentar-nos ah chegada. Enquanto a Cristiana corria desesperadamente para uma casa de banho, eu ia fazendo fila para passar a imigracao enquanto acabava de preencher (mais um) formulario de chegada.
A parte que eu mais gosto de preencher nestes documentos eh quando perguntam "que paises visitou nos ultimos seis dias". Sorri para dentro, escrevi Cambodja e Tailandia, e pensei para comigo: "that’s so cool".
Ah saida do aeroporto nao havia o mar de gente que eu antecipara. Cerca de uma ou duas centenas de pessoas, mas nada do outro mundo. Os habituais operadores turisticos a oferecerem transporte e alojamento, taxistas avidos de clientes apos horas de espera e uma serie de turistas ocidentais que tinham vindo no nosso aviao, alguns tao ou mais perdidos do que nos.
Logo, logo, a Cristiana entabulou conversa com uma senhora suica dos seus 60 anos – Anna Maria - que nos perguntou se sabiamos para onde iamos. Tendo respondido negativamente acordamos apanhar um taxi juntos para um hotel que ela conhecia e assim poderiamos partilhar os custos.
Ainda antes de termos saido do perimetro do aeroporto, a Cristiana conseguiu ir mais uma vez falar com a sua "melhor amiga", enquanto eu ia trocando impressoes com a enigmatica Anna Maria.
Nota da Cristiana: voltei da casa-de-banho a rir 'as gargalhadas. Deliciava-me a ironia da situacao. Toda a gente sabe que uma passagem pela India solta nao so os preconceitos, mas sobretudo os intestinos. E eu ainda nao tinha pisado pe fora do aeroporto, e ja tinha conhecido duas casas-de-banho. A segunda viagem foi tao repentina que nem me deu tempo de verificar se tinha papel.
Er... efectivamente, nao tinha.
Percebi ja de cocoras (era apenas um buraco no chao) que ia ter de pedir auxilio. Entreabri a porta e pus a cabeca de fora para pedir 'a simpatica senhora indiana cujo reflexo conseguia ver no espelho se me podia ajudar. Alivio! Passou-me logo duas tiras do rolo que tinha consigo. Quando sai, mais recomposta, ela perguntou-me, "did you flush?".
Flush? Se flush quer dizer encher o jarrinho de plastico com agua da torneira para lavar o buraco, entao, "yes, I flushed". No fim pediu-me bagsheesh. Importante licao de Linguistica: bagsheesh significa esmola ou gorjeta e e' uma das palavras que mais se escuta na India. Nao tinha trocos, ficou-me com a caneta.
Uma conta justa, espero, para duas tiras de papel higienico em situacao tao delicada.
Entramos no taxi que, por 380 rupias (cerca de 8 euros), nos levaria ao nosso desconhecido destino. O carro parecia antigo, ingles. Mas era um Fiat Premier - explicar-me-ia o taxista um pouco mais tarde - com apenas 10 anos de idade.
A marca que ostentava era PAL mas era de fabrico italiano, na India claro. Ja nao se fazem destes modelos, porque a fabrica fechou em 1997, altura em que a Asia foi atravessada por uma seria crise financeira.
A Cristiana e a Anna Maria apoderaram-se do banco de tras enquanto eu fiquei na frente, de janela bem aberta a disfrutar do segundo cigarro desde que saira do aviao. Enquanto as "minhas meninas" iam na palheta, eu seguia bebendo as imagens que a velocidade do taxi me atira pelos olhos a dentro.
A estrada que conduzia ao coracao de Bombaim era bem larga, com umas quatro faixas de cada lado onde centenas de taxis, alguns tuks-tuks e muitas motas se iam acotevelando num frenesim incessante de buzinadelas.
"There’s lot of traffic, no?", perguntei ao taxista. "People who work in offices go home now", avancou ele.
Sao cerca de 13 milhoes o numero de pessoas que aqui vive e se desloca todos os dias para os seus locais de trabalho.
Eram cerca de umas 10h30 da noite e eu pensei que essa eh mais ou menos a hora a que eu chego a casa, mas trabalho num jornal, que tem um horario mais tardio. Mas aqui nao. Quem trabalha no sector dos servicos vai para casa as 10 da noite e entra cerca das 9h da manha.
Lembrei-me logo dos argumentos dos nossos economistas para explicar porque eh que a nossa economia nao eh produtiva nem competitiva e porque eh que ha cada vez mais multinacionais a deslocalizar a producao para paises como este.
Apesar daquela ser uma das principais vias de entrada na cidade, nao havia quaisquer postos de iluminacao, causando um estranho efeito de luzes vermelhas no nosso sentido e de luzes brancas a vir na direccao oposta.
Comecaram a surgir alguns cartazes grandes de publicidade que me despertaram ainda mais a curiosidade. Eram mini-prospectos de Ofertas Publicas de Venda de empresas que iam para a bolsa. "Bid price 23 rupees vs issue price of 5 rupees. Subscribe between February 20 to March 6. Regulatory approval given. Buy now".
Outros "placards", para alem de publicitarem gigantes como a Samung, a Nokia ou a Sony, mostravam anuncios de fundos de pensoes e de bancos alternativos. Nao resisti em perguntar ao condutor – um indiano nos seus 40 e poucos anos com uma linha de cabelo que ja se situava bastante acima da testa – "Stock market is popular, no?"
Ele respondeu afirmativamente. Afinal de contas, Bombaim eh o centro financeiro da India. Cerca de 40% dos impostos recolhidos na India vem de Bombaim e metade do comercio internacional passa pelo seu porto natural.
Na bolsa de valores (http://www.bseindia.com/) o Sensex eh o indice principal - o primo do nosso PSI-20 - que todos os dias dita novos milionarios e destituidos numa cidade que tanto tem de riqueza como de miseria.
A adrenalina da descoberta comecou a subir e encostei-me ainda mais sobre a janela com metade da cabeca do lado de fora do carro. A estrada depressa se tornou numa avenida ah medida que os edificios comecaram a surgir.
Tudo era escuro e a contra-luz dos veiculos que vinham no sentido oposto dificultavam ainda mais o meu curioso exercicio de observacao. Deixei passar um bocadinho para que os meus olhos se habituassem as sombras. Apesar dos edificios, a luz contiuava a ser muito pouca.
Minutos depois, algumas lampadas de neon que surgiam de uma ou outra janela aberta deixavam entrever pilhas de entulho que se acumulavam nos passeios. No meio do lixo, passeavam criancas, maes, caes, gatos, ratazanas.
O cheiro era indescritivel. Comecou aos poucos, quando saimos do aeroporto, mas depressa se foi tornando mais forte. Era uma mistura de especiarias, suor, mijo, merda e incenso que davam uma sensacao de morbidez da condicao humana que aqui se vive.
Apeteceu-me fechar a janela e deixar de olhar. Mas a janela fechada atiraria a temperatura do carro para cima dos 30 graus e, afinal de contas, perguntei-me eu "Nao foi por isto que tambem quisemos viajar?" Quis fumar outro cigarro so para disfarcar o fedor, mas aguentei-me.
A certa altura passamos por uma serie de camioes do lixo que se encontravam na faixa junto ao passeio. Estranhei ver muitos e, por isso, decidi conta-los. Eram 17. Todos alinhadinhos, estacionados. Todos cheios de lixo. Deviamos estar perto de um aterro.
Mas o que mais impressao causava nao era aquela visao. O que mais chocava era que, ao passar a 30 centimetros das traseiras abertas dos camioes, o cheiro nao se sentia. Porque ja estava por toda a parte, antes e depois de passarmos a lixeira.
Aos poucos, as quatro faixas de estrada em cada um dos sentidos converteram-se em apenas tres para cada lado. Nao porque estivessemos a chegar a novo cruzamento, nem porque havia obras em curso. Nem muito menos porque havia o tao nosso popular "estacionamento em segunda fila". Nao.
Era simplesmente porque ali, as pessoas dormiam. Ali, as pessoas viviam. Praticamente sem roupa, descalcas, com os pes virados para a estrada. (Seria ali tambem que as pessoas morriam?) O lado do carro em que eu me encontrava passava agora a menos de meio metro daquela gente. Os pelos nos meus bracos ericaram-se todos e fiquei com pele de galinha. Apeteceu-me vomitar.
"Eh uma miseria", desabafou o taxista. "20 years ago it was not like his", acrescentou. "Now, there’s just too many people".
13 milhoes de pessoas. Mais do que Portugal inteiro, mais do que Londres, mais do que Bangkok, mais do que…
A populacao vem de varios "backgrounds" etnicos e fala mais de 12 liguas diferentes. A cidade que um dia um rei portugues decidiu dar ao Principe Carlos II de Inglaterra como dote pelo casamento da sua filha Catarina de Braganca em 1661 eh assim.
Chegamos cerca das 11h da noite ao hotel, uma espelunca gordurosa sem ar condicionado mas com uma TV que orgulhosamente exibia 93 canais.
Ah saida do taxi, ja nao sentia o odor nauseabundo que estranhara a inicio. Estaria ja a habituar-me?
Apos um voo de pouco mais de uma hora chegamos a Bangkok vindos de Phnom Penh por volta das 9h30, onde esperamos ate as 17h20 por nova ligacao que nos conduziu a Bombaim.
Ou seja, a brincadeira traduziu-se em 16 horas, tres paises e mais uma infeccao estomacal - desta vez numa actuacao a solo da Cristiana. E tudo em apenas um so dia!! Eh obra. Perguntem ah Cristiana que disso percebe ela cada vez mais e melhor do que eu.
Com tanta viagem e "jet lag" – sim, a vertiginosa diferenca horaria entre Bangkok e Bombaim de 1h30m deu cabo de nos – ja nos sentimos uns verdadeiros "globe trotters". Mas as verdadeiras emocoes do dia ainda estavam para vir.
Sabiamos que ia ser dificil a chegada ah India. Muitos viajantes que encontramos no nosso percurso alertaram-nos para virmos mentalmente bem preparados para o choque cultural, higienico e demografico.
Afinal de contas este pais do tamanho do Brasil tem uma populacao quase 10 vezes superior a do nosso pais irmao.
A Cristiana ja andava num nervoso miudinho ha pelo menos dois dias…
Ca entre nos, talvez tambem tenha sido isso que a atirou para a casa de banho. Sinceramente, nao sei. Mas como andamos em processo de troca de personalidade, se calhar foi apenas uma desculpa para ela ir ter com a sua - cada vez mais – melhor amiga: a sanita. Confesso que comeco ja a sentir uma pontada de ciumes. Da sanita, claro.
No que me toca, ja tinha tido alguma experiencia deste tipo numa passagem curta – de uma semana - pelo Quenia ha uns bons cinco anos. Nessa altura, umas incursoes por Mombassa – a segunda maior cidade a seguir a Nairobi - e alguns dos seus mercados tinham sido um choque ao (meu) sistema.
Por isso, enquanto a Cristiana andava no seu nervoso miudinho, eu ia tentando acostumar-me ah ideia, pensando que a India deveria ser qualquer coisa como Mombassa. "Estou preparado para tudo", pensara eu naquela "modestia" que me voces me conhecem. Mas nao estava...
Aterramos com uma temperatura de 28,5 graus a cumprimentar-nos ah chegada. Enquanto a Cristiana corria desesperadamente para uma casa de banho, eu ia fazendo fila para passar a imigracao enquanto acabava de preencher (mais um) formulario de chegada.
A parte que eu mais gosto de preencher nestes documentos eh quando perguntam "que paises visitou nos ultimos seis dias". Sorri para dentro, escrevi Cambodja e Tailandia, e pensei para comigo: "that’s so cool".
Ah saida do aeroporto nao havia o mar de gente que eu antecipara. Cerca de uma ou duas centenas de pessoas, mas nada do outro mundo. Os habituais operadores turisticos a oferecerem transporte e alojamento, taxistas avidos de clientes apos horas de espera e uma serie de turistas ocidentais que tinham vindo no nosso aviao, alguns tao ou mais perdidos do que nos.
Logo, logo, a Cristiana entabulou conversa com uma senhora suica dos seus 60 anos – Anna Maria - que nos perguntou se sabiamos para onde iamos. Tendo respondido negativamente acordamos apanhar um taxi juntos para um hotel que ela conhecia e assim poderiamos partilhar os custos.
Ainda antes de termos saido do perimetro do aeroporto, a Cristiana conseguiu ir mais uma vez falar com a sua "melhor amiga", enquanto eu ia trocando impressoes com a enigmatica Anna Maria.
Nota da Cristiana: voltei da casa-de-banho a rir 'as gargalhadas. Deliciava-me a ironia da situacao. Toda a gente sabe que uma passagem pela India solta nao so os preconceitos, mas sobretudo os intestinos. E eu ainda nao tinha pisado pe fora do aeroporto, e ja tinha conhecido duas casas-de-banho. A segunda viagem foi tao repentina que nem me deu tempo de verificar se tinha papel.
Er... efectivamente, nao tinha.
Percebi ja de cocoras (era apenas um buraco no chao) que ia ter de pedir auxilio. Entreabri a porta e pus a cabeca de fora para pedir 'a simpatica senhora indiana cujo reflexo conseguia ver no espelho se me podia ajudar. Alivio! Passou-me logo duas tiras do rolo que tinha consigo. Quando sai, mais recomposta, ela perguntou-me, "did you flush?".
Flush? Se flush quer dizer encher o jarrinho de plastico com agua da torneira para lavar o buraco, entao, "yes, I flushed". No fim pediu-me bagsheesh. Importante licao de Linguistica: bagsheesh significa esmola ou gorjeta e e' uma das palavras que mais se escuta na India. Nao tinha trocos, ficou-me com a caneta.
Uma conta justa, espero, para duas tiras de papel higienico em situacao tao delicada.
Entramos no taxi que, por 380 rupias (cerca de 8 euros), nos levaria ao nosso desconhecido destino. O carro parecia antigo, ingles. Mas era um Fiat Premier - explicar-me-ia o taxista um pouco mais tarde - com apenas 10 anos de idade.
A marca que ostentava era PAL mas era de fabrico italiano, na India claro. Ja nao se fazem destes modelos, porque a fabrica fechou em 1997, altura em que a Asia foi atravessada por uma seria crise financeira.
A Cristiana e a Anna Maria apoderaram-se do banco de tras enquanto eu fiquei na frente, de janela bem aberta a disfrutar do segundo cigarro desde que saira do aviao. Enquanto as "minhas meninas" iam na palheta, eu seguia bebendo as imagens que a velocidade do taxi me atira pelos olhos a dentro.
A estrada que conduzia ao coracao de Bombaim era bem larga, com umas quatro faixas de cada lado onde centenas de taxis, alguns tuks-tuks e muitas motas se iam acotevelando num frenesim incessante de buzinadelas.
"There’s lot of traffic, no?", perguntei ao taxista. "People who work in offices go home now", avancou ele.
Sao cerca de 13 milhoes o numero de pessoas que aqui vive e se desloca todos os dias para os seus locais de trabalho.
Eram cerca de umas 10h30 da noite e eu pensei que essa eh mais ou menos a hora a que eu chego a casa, mas trabalho num jornal, que tem um horario mais tardio. Mas aqui nao. Quem trabalha no sector dos servicos vai para casa as 10 da noite e entra cerca das 9h da manha.
Lembrei-me logo dos argumentos dos nossos economistas para explicar porque eh que a nossa economia nao eh produtiva nem competitiva e porque eh que ha cada vez mais multinacionais a deslocalizar a producao para paises como este.
Apesar daquela ser uma das principais vias de entrada na cidade, nao havia quaisquer postos de iluminacao, causando um estranho efeito de luzes vermelhas no nosso sentido e de luzes brancas a vir na direccao oposta.
Comecaram a surgir alguns cartazes grandes de publicidade que me despertaram ainda mais a curiosidade. Eram mini-prospectos de Ofertas Publicas de Venda de empresas que iam para a bolsa. "Bid price 23 rupees vs issue price of 5 rupees. Subscribe between February 20 to March 6. Regulatory approval given. Buy now".
Outros "placards", para alem de publicitarem gigantes como a Samung, a Nokia ou a Sony, mostravam anuncios de fundos de pensoes e de bancos alternativos. Nao resisti em perguntar ao condutor – um indiano nos seus 40 e poucos anos com uma linha de cabelo que ja se situava bastante acima da testa – "Stock market is popular, no?"
Ele respondeu afirmativamente. Afinal de contas, Bombaim eh o centro financeiro da India. Cerca de 40% dos impostos recolhidos na India vem de Bombaim e metade do comercio internacional passa pelo seu porto natural.
Na bolsa de valores (http://www.bseindia.com/) o Sensex eh o indice principal - o primo do nosso PSI-20 - que todos os dias dita novos milionarios e destituidos numa cidade que tanto tem de riqueza como de miseria.
A adrenalina da descoberta comecou a subir e encostei-me ainda mais sobre a janela com metade da cabeca do lado de fora do carro. A estrada depressa se tornou numa avenida ah medida que os edificios comecaram a surgir.
Tudo era escuro e a contra-luz dos veiculos que vinham no sentido oposto dificultavam ainda mais o meu curioso exercicio de observacao. Deixei passar um bocadinho para que os meus olhos se habituassem as sombras. Apesar dos edificios, a luz contiuava a ser muito pouca.
Minutos depois, algumas lampadas de neon que surgiam de uma ou outra janela aberta deixavam entrever pilhas de entulho que se acumulavam nos passeios. No meio do lixo, passeavam criancas, maes, caes, gatos, ratazanas.
O cheiro era indescritivel. Comecou aos poucos, quando saimos do aeroporto, mas depressa se foi tornando mais forte. Era uma mistura de especiarias, suor, mijo, merda e incenso que davam uma sensacao de morbidez da condicao humana que aqui se vive.
Apeteceu-me fechar a janela e deixar de olhar. Mas a janela fechada atiraria a temperatura do carro para cima dos 30 graus e, afinal de contas, perguntei-me eu "Nao foi por isto que tambem quisemos viajar?" Quis fumar outro cigarro so para disfarcar o fedor, mas aguentei-me.
A certa altura passamos por uma serie de camioes do lixo que se encontravam na faixa junto ao passeio. Estranhei ver muitos e, por isso, decidi conta-los. Eram 17. Todos alinhadinhos, estacionados. Todos cheios de lixo. Deviamos estar perto de um aterro.
Mas o que mais impressao causava nao era aquela visao. O que mais chocava era que, ao passar a 30 centimetros das traseiras abertas dos camioes, o cheiro nao se sentia. Porque ja estava por toda a parte, antes e depois de passarmos a lixeira.
Aos poucos, as quatro faixas de estrada em cada um dos sentidos converteram-se em apenas tres para cada lado. Nao porque estivessemos a chegar a novo cruzamento, nem porque havia obras em curso. Nem muito menos porque havia o tao nosso popular "estacionamento em segunda fila". Nao.
Era simplesmente porque ali, as pessoas dormiam. Ali, as pessoas viviam. Praticamente sem roupa, descalcas, com os pes virados para a estrada. (Seria ali tambem que as pessoas morriam?) O lado do carro em que eu me encontrava passava agora a menos de meio metro daquela gente. Os pelos nos meus bracos ericaram-se todos e fiquei com pele de galinha. Apeteceu-me vomitar.
"Eh uma miseria", desabafou o taxista. "20 years ago it was not like his", acrescentou. "Now, there’s just too many people".
13 milhoes de pessoas. Mais do que Portugal inteiro, mais do que Londres, mais do que Bangkok, mais do que…
A populacao vem de varios "backgrounds" etnicos e fala mais de 12 liguas diferentes. A cidade que um dia um rei portugues decidiu dar ao Principe Carlos II de Inglaterra como dote pelo casamento da sua filha Catarina de Braganca em 1661 eh assim.
Chegamos cerca das 11h da noite ao hotel, uma espelunca gordurosa sem ar condicionado mas com uma TV que orgulhosamente exibia 93 canais.
Ah saida do taxi, ja nao sentia o odor nauseabundo que estranhara a inicio. Estaria ja a habituar-me?

12 Comments:
Salvé grande Ricardo.
Sabe mesmo bem ler-te também!
Beijos e abraços!!!
Ruizinho & companhia ilimitada
Welcome to the real world!
Têm que se aguentar a bomboca. O destino sudueste asiatico foi escolhido com um objectivo, não?
cá vos esperamos
As melhoras da Cristiana e da melhor amiga dela, e passem depressa por essa merd.....
So para gente jovem e nao e de espirito, e de idade.
Possssssssssssssssssssssa !
Um beijo para os dois
Maria da Luz e Antonio
Filhotes,
Tal e qual como contava o Dominique La Pierre na "Cidade da Alegria", escrito há 20 anos.....
Muito bem descrito, Ricardo!É de tirar o apetite a qualauer um. Mas a Índia tem mais... e tenho a certeza que ireis descobrir. Preocupa-me o desarranjo da Cristiana que era suposto começar só aí. Arroz cozido, muito! E Ultra levure com todos os outros cuidados.Vegetais... só cozinhados!
Um beijo grande, meus amores. Muito meigo. A vossa Mami
Quando fiz o "zapping" do texto antes de começar a ler, fiquei triste por não encontrar nenhuma foto.
Enganei-me.
Talvez tenha sido preferível não ter fotos.
Melhor, o texto é uma foto.
Bombaim. Mumbai. A cidade onde se nasce, cresce e morre na rua.
Não duvido que só estando lá se pode sentir todo o peso esmagador desta frase.
Mas a descrição é tão viva que sinto os ombros a vergarem sob essa carga.
Acabais de ter um privilégio que muitos de nós não tiveram: a de conhecer a humanidade no seu pior.
Obrigado por o partilharem connosco.
Será que vou reconhecer-vos quando voltardes?
Beijões enormes, com muito amor.
By the way ...
Os e-mails que mandaram tinham virus. Aliás, eram só virus, na forma de fotos (!?) que não abrimos.
Fomos prevenidos pelo sistema.
Será que ainda vou ter que trocar canetas por tiras de papel para limpar o rabo do computador?
Sem comentários...
Paps, vejo-me obrigada a discordar de uma coisa que disseste. Não creio que eles estejam a conhecer a humanidadeno seu pior. talvez até pelo contrário a conheçam no seu maior. Quanto maior a miséria, mais os valores fundamentais da humanidade se elevam... Não sei perambulantes, digam-nos vós como é.
Grande descrição! É um cartão de visita perfeito para nunca parar por essas paragens. Mas experimentar é mesmo assim, com tudo de bom e de mau que isso acarrete. Talvez tenham tempo para ver algumas influências portuguesas que ainda possam existir por aí... contem. Cheio de curiosidade.
Beijocas e abraços,
JT
Oi RD. após meses de férias ainda não te esqueceste do nome do índice da nossa bolsa. é o bichinho. espero que te continues a divertir como parece pelos vários textos que tive a ler. beijocas para a Cristiana e desculpa não participar mais no teu blog, que está fantástico...abraços
o texto de cima é do Carregueiro .... esqueci-me de assinar :-)
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