A India esta dentro de nos
"Cheira a caca.
Cheira a caca por todo o lado.
Nao aguento mais.
Cheira a caca."
Tinhamos acabado de chegar a Delhi depois de uma viagem de 17 horas no comboio de Mumbai e o lamento repetia-se como um mantra - muito pouco espiritual, e' certo - na minha cabeca.
A experiencia ferroviaria nem tinha corrido mal, a carruagem parecia limpinha e ficamos num compartimento com seis beliches. Mas chegando 'a capital, confrontamo-nos novamente com o lixo e porcaria a toda a volta.
Filosoficamente, a India e' um exercicio de paciencia.
Paciencia quando o vizinho do lado no banco do comboio puxa uma escarra bem la do fundo para cuspir pela janela;
paciencia quando a mala de um passageiro acabado de chegar a uma fila de espera aterra mesmo em cima do nosso pe;
paciencia quando do alto da camarata de primeira classe, que nos permitimos numa viagem longa, vemos uma barata a passarinhar entre as malas amontoadas no chao;
paciencia quando nos impedem de pagar um bilhete em rupias se nao tivermos o recibo comprovativo do levantamento de multibanco;
paciencia quando nos vemos espremidos entre um riquexo e a parede e depois passa uma moto que nos atira para uma poca de lama;
paciencia quando o cheiro nauseabundo a que ja nos tinhamos habituado se intensifica momentaneamente e parece intoxicar.
Talvez o termo mais adequado seja, em vez de paciencia, satyagraha: “resistencia passiva”, a arma com que Gandhiji derrubou o imperio britanico.
Nao significa resignarmo-nos perante a miseria humana, nem ignorarmos o fedor que permeia as ruas. Significa talvez rejeitar com contencao. Com consciencia de que, apesar de nos sentirmos organismos estranhos neste micro-cosmos bizarro, pertencemos todos a ele.
“A India esta dentro de nos”, dizia um portugues que conhecemos pelo caminho, que tem frequentado varios centros de meditacao.
Sinto o mesmo. A India concentra em si tudo o que a humanidade tem, de melhor e de pior. Talvez por isso seja um teste exigente 'a nossa capacidade de encaixe. Nao estamos habituados a ser constantemente confrontados com o pior que ha em nos. Ouvimos casos de pessoas que aterraram em Delhi com ideias de passar ca um ano e a primeira coisa que fizeram foi meter-se num aviao de volta.
Mas tambem nos nos metamorfoseamos ao mergulhar no caleidoscopio de cores, gentes e cheiros. Tudo flui e nao ha contrastes; ha co-existencias. Como o grande Ganges que tudo abarca e tudo contem.
Como explicar?
Citando outra vez o homem ridiculamente enfezado que comoveu uma nacao e o mundo, “quem alguma vez sera capaz de descrever um acontecimento? Se um homem nem sequer consegue descrever com exactidao uma gota de agua que tenha visto”.
Nao ha contrastes, porque tudo co-existe. O bom e o mau, o belo e o horrendo, o santo e o pecador: coabitam sem chocar. Talvez porque cada um saiba o seu lugar (dando origem, in extremis, ao sistema de castas).
Mas a ausencia de constrastes nao significa homogeneidade. Pelo contrario.
Se de noite as criancas dormem ao lado de ratazanas (como o Ricardo escreveu), de dia o manto de miseria parece levantar-se e a cidade transforma-se num intenso centro produtivo. A pobreza continua la, mas e’ menos ofensiva.
Os raios de Sol banham as ruas e incidem sobre pormenores que completam a visao que temos da India: as camisas dos funcionarios publicos irrepreensivelmente hirtas com goma; o vigor dos engraxadores que em cada esquina abrilhantam os sapatos de outros; as dobras da cintura que se espreitam por baixo do sari de uma mulher abastada; o ouro reluzente que compete com a maquilhagem cuidada; os ouvidos inspeccionados a cotonete na via publica, por profissionais de um sector comercial que desconheciamos existir; e a imagem mais forte: um sem-abrigo sentado num pedaco de cartao a lavar a cara com um minisculo copo de agua trazido por alguem que lhe estendeu a mao.
E quando o intocavel, de noite, voltar para o colo das ratazanas, noutro canto da cidade a classe media de Mumbai ira - de jeans americanos, perfume frances e telemovel japones – assistir a um espectaculo de stand-up comedy num clube de jazz em cima da baia; noutro canto ainda, o magnata das cervejas selara um acordo milionario para aumentar a frota de avioes de uma recem-lancada operadora de baixo custo; e talvez noutro canto o guru cruze as pernas em posicao de lotus para meditar em silencio.
Nao sao contrastes.
Sao pontos infimos que, juntos, compoem a imensa tapecaria que e’ a India.
Que e’ a Humanidade.
Cheira a caca por todo o lado.
Nao aguento mais.
Cheira a caca."
Tinhamos acabado de chegar a Delhi depois de uma viagem de 17 horas no comboio de Mumbai e o lamento repetia-se como um mantra - muito pouco espiritual, e' certo - na minha cabeca.
A experiencia ferroviaria nem tinha corrido mal, a carruagem parecia limpinha e ficamos num compartimento com seis beliches. Mas chegando 'a capital, confrontamo-nos novamente com o lixo e porcaria a toda a volta.
Filosoficamente, a India e' um exercicio de paciencia.
Paciencia quando o vizinho do lado no banco do comboio puxa uma escarra bem la do fundo para cuspir pela janela;
paciencia quando a mala de um passageiro acabado de chegar a uma fila de espera aterra mesmo em cima do nosso pe;
paciencia quando do alto da camarata de primeira classe, que nos permitimos numa viagem longa, vemos uma barata a passarinhar entre as malas amontoadas no chao;
paciencia quando nos impedem de pagar um bilhete em rupias se nao tivermos o recibo comprovativo do levantamento de multibanco;
paciencia quando nos vemos espremidos entre um riquexo e a parede e depois passa uma moto que nos atira para uma poca de lama;
paciencia quando o cheiro nauseabundo a que ja nos tinhamos habituado se intensifica momentaneamente e parece intoxicar.
Talvez o termo mais adequado seja, em vez de paciencia, satyagraha: “resistencia passiva”, a arma com que Gandhiji derrubou o imperio britanico.
Nao significa resignarmo-nos perante a miseria humana, nem ignorarmos o fedor que permeia as ruas. Significa talvez rejeitar com contencao. Com consciencia de que, apesar de nos sentirmos organismos estranhos neste micro-cosmos bizarro, pertencemos todos a ele.
“A India esta dentro de nos”, dizia um portugues que conhecemos pelo caminho, que tem frequentado varios centros de meditacao.
Sinto o mesmo. A India concentra em si tudo o que a humanidade tem, de melhor e de pior. Talvez por isso seja um teste exigente 'a nossa capacidade de encaixe. Nao estamos habituados a ser constantemente confrontados com o pior que ha em nos. Ouvimos casos de pessoas que aterraram em Delhi com ideias de passar ca um ano e a primeira coisa que fizeram foi meter-se num aviao de volta.
Mas tambem nos nos metamorfoseamos ao mergulhar no caleidoscopio de cores, gentes e cheiros. Tudo flui e nao ha contrastes; ha co-existencias. Como o grande Ganges que tudo abarca e tudo contem.
Como explicar?
Citando outra vez o homem ridiculamente enfezado que comoveu uma nacao e o mundo, “quem alguma vez sera capaz de descrever um acontecimento? Se um homem nem sequer consegue descrever com exactidao uma gota de agua que tenha visto”.
Nao ha contrastes, porque tudo co-existe. O bom e o mau, o belo e o horrendo, o santo e o pecador: coabitam sem chocar. Talvez porque cada um saiba o seu lugar (dando origem, in extremis, ao sistema de castas).
Mas a ausencia de constrastes nao significa homogeneidade. Pelo contrario.
Se de noite as criancas dormem ao lado de ratazanas (como o Ricardo escreveu), de dia o manto de miseria parece levantar-se e a cidade transforma-se num intenso centro produtivo. A pobreza continua la, mas e’ menos ofensiva.
Os raios de Sol banham as ruas e incidem sobre pormenores que completam a visao que temos da India: as camisas dos funcionarios publicos irrepreensivelmente hirtas com goma; o vigor dos engraxadores que em cada esquina abrilhantam os sapatos de outros; as dobras da cintura que se espreitam por baixo do sari de uma mulher abastada; o ouro reluzente que compete com a maquilhagem cuidada; os ouvidos inspeccionados a cotonete na via publica, por profissionais de um sector comercial que desconheciamos existir; e a imagem mais forte: um sem-abrigo sentado num pedaco de cartao a lavar a cara com um minisculo copo de agua trazido por alguem que lhe estendeu a mao.
E quando o intocavel, de noite, voltar para o colo das ratazanas, noutro canto da cidade a classe media de Mumbai ira - de jeans americanos, perfume frances e telemovel japones – assistir a um espectaculo de stand-up comedy num clube de jazz em cima da baia; noutro canto ainda, o magnata das cervejas selara um acordo milionario para aumentar a frota de avioes de uma recem-lancada operadora de baixo custo; e talvez noutro canto o guru cruze as pernas em posicao de lotus para meditar em silencio.
Nao sao contrastes.
Sao pontos infimos que, juntos, compoem a imensa tapecaria que e’ a India.
Que e’ a Humanidade.

18 Comments:
Sem palavras!
Bem meninos, voces ja comecaram essa viagem que eu chamo viagem da vossa vida e em todas as viagens da nossa vida, ha coisas boas e coisas mas, e como voces dizem, e a realidade do mundo e e a humanidade. Ha que continuar e enfrentar tal como as coisas sao mas procurar a parte boa, porque no fundo, no fundo, ha sempre uma parte boa mesmo que nos pareca pequena. Bem prega Frei Tomaz...
Voces nao sabem, mas em Mocambique quando nos queriamos aborrecer os canecos chamavamos lhes satyagra e eles ficavam furiosos.
Penso que quando mudarem de ambiente, porque para mim e exactamente nas cidades, especialmente nas grandes, que encontramos os dois extremos o que e pessimo, mas como dizia, penso que quando mudarem de ambiente e que encontrarao a verdadeira India e o seu misticismo, a sua cultura, etc.
Um beijo grande para os dois e coragem !
Maria da Luz e António
Bem meninos, voces ja comecaram essa viagem que eu chamo viagem da vossa vida e em todas as viagens da nossa vida, ha coisas boas e coisas mas, e como voces dizem, e a realidade do mundo e e a humanidade. Ha que continuar e enfrentar tal como as coisas sao mas procurar a parte boa, porque no fundo, no fundo, ha sempre uma parte boa mesmo que nos pareca pequena. Bem prega Frei Tomaz...
Voces nao sabem, mas em Mocambique quando nos queriamos aborrecer os canecos chamavamos lhes satyagra e eles ficavam furiosos.
Penso que quando mudarem de ambiente, porque para mim e exactamente nas cidades, especialmente nas grandes, que encontramos os dois extremos o que e pessimo, mas como dizia, penso que quando mudarem de ambiente e que encontrarao a verdadeira India e o seu misticismo, a sua cultura, etc.
Um beijo grande para os dois e coragem !
Maria da Luz e António
Com uma entrada só a falares de caca, como queres que comente o blog...ehehehheh. Mas ok. pelo que li é mesmo a realidade da Índia. Quando cá chegares já não te vais queixar de nada, estou a ver. Qual barata qual quê.
Beijocas para a Cristiana e Abraços para ti.
PS: Ainda vai ser campeão à custa do Benfica
PS2: Se te quiseres entreter vai ao canal ler o projecto de prospecto da OPA sobre a PT. Vale mais que os livros do Dan Brown. é só adrenalina .....zzzzzzzzzzzz
PS3. Não acredito em ti, mas é verdade, também temos saudades tuas
Sou o Carregues :-)
Continuai a procurar...........
Um beijão grande da Mami
Sinto-vos cheios...
Paro para pensar muitas vezes como será para vós o regresso de esta viagem em que cresceram tanto, não só a título pessoal, como também como um casal.
Fico feliz por saber que tiveram a oportunidade e não a deixaram passar, antes pelo contrário, agarram-na com unhas e dentes e seguiram em frente.
Parabéns! Não sei se teria a mesma coragem. É que apesar de toda a gente dizer que é uma viagem de sonho (que é) nem todos teriam a coragem de a fazer se tivessem a oportunidade.
Obrigada por partilharem conosco esta experiência única.
Estamos convosco...
Beijão enorme
Sinceramente esperava que New Delhi não fosse tão ... Mumbai.
Mas a vossa descrição não deixa muita margem para dúvidas.
É importante a experiência humana que estais a viver. Mas ... já agora ... e talvez o que vou dizer seja mais para ti, Ricardo: acabei de ler umas coisas sobre a visita do Bush. Então salientava-se que a Índia é a democracia mais populosa do Mundo. E em breve será a nação mais populosa do Mundo, ultrapassando a China. Esta, com a sua política de "filho único" will get old before they get rich... Em termos económicos o futuro é a Ásia. E que é se poderá aprender ao visitar um país imenso como esse?
Beijões enormes
Paps
Deixem lá, se estivessem num safari no Quénia, com um PC sem acentuação, tb diziam que "Cheira a caca"...
"Ficam" bem, Pera & Ambulante
Os meus comentários nunca aparecem, sei lá porquê, mas já escrevi alguns. Adiante, ainda me atrevo a escrever para o boneco. Cada vez estou a gostar mais dos textos. Este de hoje parece-me particularmente feliz. Nunca estive na Índia mas, talvez porque ela está dentro de todos nós, o escrito coincide com aquilo que eu pensava. Parabéns.Saudades PJ
Só para dar os Parabens ao Ricardo. Um grande abraço e um optimo dia.
Um beijo para os dois
Maria da Luz e Antonio
Meus queridos amigos e heróis, Ricardo e Cristiana, se pairava pela minha cabeça a idéia de algum dia visitar a Índia, ela está descartada. O relato de vocês é desanimador. Haja paciência pra agüentar tanto desconforto. Mais uma vez, vocês estão de parabéns!
então parabéns! está tudo bem? no news, good news, i hope...
beijos e abraços
Vá lá sempre apareceu o meu comentário. É verdade que tenho apreciado muito os textos sobre a India. Em resosta ao papá que perguntava o que se poderia aprender nesse mundo, respondo. Apesar da porcaria e da miséria dificilmente descritível, há aí uma capacidade de aceitação que tam ém é fruto de paz interior, de domínio do sofrimento - o grande objectivo do budismo. Saudades PJ
A INDIA TAMBEM ESTA DENTRO DE MIM...
foi qualquer porcaria que comi, tenho andado a pintar à pistola desde há 2 dias.
Sorry, tinha de partilhar esta :D
Vai anónimo para ver se adivinham quem sou.. hehehe
EPÁ!!! PARABÉNS Ricardo! Mais vale tarde que nunca...eh!
No news good news!!! Hope too!
Beijinhos e abraços
Ruizinho & companhia ilimitada
O cheiro empesta! De cada vez que abro o blog à procura de notícias dou de caras com o "cheira a caca".
E nada de novas!
Tenham lá peninha e actualizem o blog com tudo o de bom que vos deve estar a acontecer.Beijos fortes da vossa Mami
Estou à espera de actualizações... ;)
Imagino que no meio de tantas pessoas e confusão seja dificil ir à net...
Força. Abraços e beijos,
João Tomé
Cá para mim, Pera & Ambulante, acabaram de chegar de de uma festa Goa Trance..
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