Um jogo de espelhos
Despedimo-nos de Goa com uma Lua gorda e cheia, como gorda e cheia foi a nossa passagem pela antiga colonia portuguesa.
Comecou ate com algum desencanto, quando - depois de passarmos uma noite em Panjim, a capital estatal - pegamos numa moto alugada (uma Bajaj Pulsar, made in India) e seguimos para Norte, onde os guias turisticos garantem que se encontra a accao.
Accao, neste caso, significa hordas de turistas cuspidos por voos charter em pacotes quinzenais. Ceus, tantas horas de voo para ver o pior do Algarve ali replicado! Comercio em excesso, precos inflaccionados e pele branca cozida au thermidor nas aguas calidas do Mar Arabico.
Foi para estas praias de Calangute, Baga e Anjuna que muitos hippies rumaram nos anos 60, em busca de iluminacao interior. O caminho espiritual foi ladrilhado com todo o tipo de drogas e, paralelamente, gerou a batida do Goa Trance.
Hoje encontram-se alguns resquicios dessa era, mas nao testemunhamos nada de relevo. Em parte porque o turismo e' muito sazonal e chegamos em fim de epoca. Logo, logo chegara a moncao.
Depois do choque da primeira incursao, voltamos para a capital e passamos o resto do dia a lamber as feridas, dando as nossas expectativas por defraudadas. As duas semanas que reservamos para Goa destinavam-se a coroar tres meses de viagem. Queriamos pouca confusao, areal extenso, uma festa de vez em quando e pouco mais...
Mas nem todo o optimismo foi derrotado e adormecemos a pensar: "amanha vamos para Sul e encontramos exactamente aquilo que procuravamos!".
E assim foi. Atravessamos o rio Zuari e apanhamos uma estrada costeira em direccao 'a praia de Colva. Seguindo o faro, viramos num atalho com uma placa que indicava: Casa Ligorio.
Ali, no meio de um palmar, encontramos o nosso santuario. Uma residencia familiar, com nove quartos e um trilho de 200 metros em terra batida que leva directamente 'a praia. Propriedade de goeses, a residencial e' gerida por dois irmaos, o Jim e a Ortulana, com um sorriso que logo nos conquistou. De noite, por entre o trepidar da ventoinha de tecto, o ouvido capta os grilos e as ondas. De manha, o jejum quebra-se com fruta tropical e torradas numa mesa de jardim.
Nessa altura em nada suspeitavamos que a Casa Ligorio viria a tornar-se o centro gravitacional das nossas relacoes com a populacao local. Foi atraves daquele ponto de encontro que percebemos o afecto singular que une Goa a Portugal.
O primeiro contacto deu-se ao regressarmos 'a base uma noite apos o jantar. Um senhor de certa idade, que estava em animada conversa com os anfitrioes, ficou exultante quando lhe disseram que eramos portugueses.
- Eu servi o exercito portugues na altura da libertacao de Goa [1961] - anunciou com orgulho - era operador de radio.
Pos-se em sentido e, no calor da noite Indica, comecou a declamar em portugues:
- Herois do mar, nobre povo, nacao valente e imortal...
Um arrepio de emocao percorreu-nos a pele ao escutarmos o nosso hino cantado por um hindu de 71 anos. De seguida, o senhor K. juntou as pernas em formacao militar, bateu a continencia e repetiu gaguejadamente :
- Esquerdo, direito, esquerdo, direito. Companhiiiia… rodar !
Ainda nos estavamos a rir com a delicia da situacao e ja ele estava a pegar no telefone para nos por em contacto com o filho, V. Sem percebermos bem
As 9h30 prontamente, o V. apareceu no jardim e sentou-se ‘a nossa mesa para expor o caso do pai.
Acontece que a lei portuguesa da nacionalidade contem uma clausula especial que concede a cidadania a todas as pessoas nascidas em
O senhor K. e’ um dos varios goeses que aguarda ha varios anos uma resposta ao seu pedido. A procura e’ grande e o Consulado – instalado numa bela mansao de fachada amarela em Panjim – recebe diariamente uma fila de gente a querer inteirar-se do seu processo.
A situacao deu origem a duas falacias: por um lado, gerou a necessidade de intermediaries capazes de redigir a documentacao em portugues. Estes agentes chegam a cobrar 100 mil rupias, dez vezes o ordenado medio de um funcionario publico na India.
Assim que nos despedimos do V., ja nos aguardava o senhor A., um goes de porte honrado que – 45 anos apos a expulsao da administracao portuguesa – continua a dominar a nossa lingua com um rigor invejavel.
A situacao deste funcionario judicial aposentado coincide exactamente com o segundo cenario, o das alegacoes de fraude. O seu processo esbarrou num obstaculo intrigante: os registos das suas certidoes de nascimento e de casamento foram destruidos. As folhas, contidas em livros separados de duas conservatorias distintas, foram rasgadas, contou-nos ele.
Agora, aos 67 anos, a sua missao e’ encontrar “o bandido” que lhe tera roubado a identidade.
- Nao confiem nos indianos. Esses gajos sao todos uns ladroes! – dizia-nos ele com ardor.
- Mas, senhor A., o senhor nao se sente indiano? – perguntamos.
- A minha nacao de nascimento e’ Portugal – respondeu-nos enquanto enxugava as lagrimas – Eu amo a minha nacao.
A distincao que os goeses fazem em relacao aos restantes estados pareceu-nos mais marcada entre cristaos como o senhor A.
Talvez pelo facto de a sociedade indiana ser tao estratificada, o elo portugues tornou-se a base da identidade para os catolicos de Goa. Em Panjim, existe mesmo um bairro, chamado Fontainhas, onde as geracoes mais velhas ainda utilizam o portugues para comunicar entre si. Quando passamos por la, ninguem estranhou o facto de os termos abordado espontaneamente em portugues.
Mas nao e’ so a lingua ou a religiao que diferenciam Goa. A limpeza das ruas foi um balsamo depois das experiencias que tivemos em Delhi e Bombaim. Ao pe dos outros estados, e’ um oasis de higiene publica.
De qualquer forma, ficamos intrigados com o carinho que aqui se nutre por Portugal. O mais natural seria encontrar algum ressentimento para com o antigo poder colonial, como acontece em Mocambique.
Talvez parte da resposta resida num cartaz publicitario que encontramos em Margao, a segunda maior cidade de Goa. Nele, um agente anunciava os seus servicos em ingles – «Portuguese nationality» - ao lado de uma imagem da Estatua da Liberdade, a mesma que acolheu geracoes de emigrantes em busca de uma vida melhor no Novo Mundo.
Ficamos boquiabertos com a profundidade subliminar daquele simbolo e nao conseguimos deixar de rir com o surrealismo da cena.
- Only in
De facto, muitas vezes nos encontramos no dominio do surreal durante a nossa passagem pela India.
Um dos episodios mais atordoantes foi quando chegamos a Delhi de noite, depois de nove horas num comboio imundo que apanhamos na cidade santa de Haridwar.
Saimos derreados da estacao e ficamos logo de cara torta quando o condutor do riquexo nos pediu 120 rupias, o triplo da tarifa normal, para nos levar para o centro da cidade.
Depois de nos batalharmos com aquele e acertarmos o preco com outro, mergulhamos no trafico intenso que, ‘as 10h da noite, nao tinha abrandado grande coisa. O nosso motorista, ‘a semelhanca de qualquer um que se preze no sub-continente asiatico, buzinava incessantemente.
A juntar a este ruido estridente, e por algum motivo desconhecido, tambores rufavam a toda a
Ainda estavamos de queixo caido olhando para aquela visao bizarra de um puro-sangue no coracao da cidade porca, quando uma motorizada veio de encontro ao nosso riquexo, desviando-se no ultimo segundo para embater num poste de iluminacao apagado.
Se ja estavamos atordoados com o cansaco da viagem, mais ainda ficamos. Olhamos estarrecidos um para o outro, abanando incredulamente a cabeca enquanto nos questionavamos :
- Explica-me so como e’ que vamos conseguir descrever uma cena destas? Parece que estamos sob o efeito de alucinogeneos!
O que vale e’ que a mao do surreal nem sempre nos tocou de forma negativa. Houve uma situacao diametralmente oposta, que se passou no aniversario do Ricardo.
Logo de manha zarpamos na nossa Bajaj em direccao ‘as praias do Norte para mudar um pouco de paisagem. Mal pusemos o pe fora da moto, fomos abordados por um promotor de uma luxuosa estancia em regime de time-sharing, que nos impingiu dois cartoes com raspadinha.
A mim saiu-me uma garrafa de vinho – assaz adequada, pensei logo, para celebrarmos a ocasiao – mas depois foi a vez do Ricardo e, surpresa!, saiu-lhe o primeiro premio: uma semana de alojamento em Goa, na Tailandia ou em Bali.
Quando chegamos ao aparthotel, no sentido de ver para crer, ainda nos ofereceram o jantar dessa noite, visto ser o aniversario do Ricardo.
Esse dia afortunado contribuiu para que, tal como a Lua, a nossa estadia em Goa fosse gorda e cheia.
Mas nao so.
Na penultima noite, jantamos com o V. e a mulher, uma jovem libanesa de tez clara e olho azul que, coincidencia suprema, frequentou a mesma escola onde eu e o meu irmao estudamos em Abu Dhabi (Emirados). Ela sente-se algo isolada porque, apesar da sua enorme beleza, nao deixa de ser alvo de discriminacao pelo facto de nao ser hindu.
E no ultimo dia, fomos banqueteados ao almoco pelo senhor A., que fez questao de nos convidar para sua casa, uma ampla e arejada moradia com chao e colunas de marmore. Degustamos o melhor da comida goesa, servida com uma hospitalidade enternecedora.
Poucas horas depois, o Jim da Casa Ligorio acompanhou-nos ate ‘a paragem de autocarros em Margao para – como faria com qualquer familiar – se certificar de que partiamos para Bombaim em boas maos.
Como a viagem era nocturna, reservamos lugares com cama. Quando entramos no veiculo, surpreendeu-nos o conforto de cada compartimento, com beliches estofados a pele sintetica; nao perdemos um segundo em aninharmo-nos um no outro.
Mas, pouco depois, o veiculo parou em Panjim e fomos informados de que o nosso lugar era no autocarro que se encontrava estacionado ‘a frente daquele.
Em dois minutos, qualquer ideia de conforto esvaneceu-se como uma fantasia. Algo confusos, subimos os degraus do outro e fomos logo tomados pelo cheiro a gente. Gente encafuada durante horas, sem arejamento, num espaco diminuto.
As paredes eram sebosas e os cortinados poeirentos. Os lugares estavam cobertos com uma alcatifa degradada para disfarcar os rasgoes dos estofos velhos. A ideia de passar doze horas estendida sobre uma superficie felpuda e pulguenta foi superior ‘a minha resistencia.
Tomada de uma ira pouco racional, sai como um furacao do autocarro e disse que queria voltar para o anterior. Ainda estava ca fora a reclamar os meus alegados direitos de passageira, quando o vi arrancar em direccao a Bombaim.
- O que? Agora vai-se embora sem mim? – exclamei incredula, pensando «e o Ricardo deixa o homem partir sem dizer nada?».
Por essa altura (vim eu mais tarde a saber), estava o Ricardo la dentro a berrar para o condutor:
- Hei! A minha mulher esta la fora!
(As coisas a que um homem se submete em nome da felicidade conjugal...)
O autocarro la abrandou e vi a cabeca do Ricardo espreitar pela porta ‘a minha procura. Voltei contrariada para o nosso lugar e sentei-me de bracos cruzados, com a cabeca agachada para nao bater no compartimento de cima.
Quando a luz individual resolveu funcionar momentaneamente, quase que dei um pulo.
- Aaaaaaaaaah! Isto tem baraaaaatas!
- Oh querida, va la, relaxa! Ja estas sugestionada – tentava o Ricardo consolar-me.
- Teeem! Eu viiiii!
(Curioso como um insecto tem a capacidade de nos fazer regredir aos estagios da infancia.)
- Entao va, mostra-me la.
Levantei a alcatifa e ali, explorando o potencial gorduroso da parede do nosso compartimento, estava uma barata, concedo que pequena, mas ainda assim aterradora. O Ricardo repos o tapete, apagou a luz, deitou-se daquele lado e puxou-me para os seus bracos.
- Va, tenta dormir.
(Repito: as coisas a que um homem se submete em nome da felicidade conjugal...)
E ‘a medida que as horas se desenrolavam sem que conseguisse pregar olho, uma pergunta foi-me martelando a consciencia:
« Porque? »
« Porque? Porque? Porque? »
Porque sera que trocamos o conforto do lar pela possibilidade de dormir com baratas?
Porque sera que preferimos a terceira classe de um comboio asiatico a um carro de aluguer num pais ocidental?
Porque sera que pagamos para pernoitar numa aldeia sem agua nem luz? Ou para nos acocorarmos numa latrina sem papel nem autoclismo?
Ate agora nao encontrei a totalidade da resposta, mas e’ verdade que a India e o Sudeste Asiatico nos envolveram mais do que a Australia ou a Nova Zelandia.
Talvez porque, para alem de um teste aos nossos limites, viajar e’ tambem um jogo de espelhos, uma busca dos opostos.
Porque e’ na diferenca que nos encontramos a nos proprios?

8 Comments:
Meus amores,
Fico contente e deliciada com as vossas aventuras... Continuem a desfrutar e a encantar, quem ainda por inércia e receio, não se aventurou ainda... Beijinhos Andrea
Bravo! Passei estes dias todos à espera que fosse embora a Índia dentro de nós. Este tem muito que se lhe diga mas o espaço é curto. Desde a comoção patriõtica perante o hino cantado ou entoado por um Hindú até até ao hegeliano "tese-antítese-síntese" do final. E a ilha de limpeza no meio da porcaria de um semi-continente...
Fico à esper de mais. P.J.
Bravo! Passei estes dias todos à espera que fosse embora a Índia dentro de nós. Este tem muito que se lhe diga mas o espaço é curto. Desde a comoção patriõtica perante o hino cantado ou entoado por um Hindú até até ao hegeliano "tese-antítese-síntese" do final. E a ilha de limpeza no meio da porcaria de um semi-continente...
Fico à esper de mais. P.J.
Filhotes,
Porquê, porquê, porquê?
E as respostas estão dentro de vós!
A maioria de nós viaja e regressa a pensar que conheceu povos, usos e costumes e que até adquiriu a bagagem necessária para fazer uma boa análise ou comentário televisivo. Como, sem experimentar na pele os cheiros, o desconforto, os meios de transporte e a sabedoria de vida dessas gentes?
Nem todos teríamos a vossa capacidade e coragem. Eu não e a Cristiana sabe. Por isto mesmo, obrigada. Por me terem permitido partilhar.
Um beijo forte da vossa, Mami
P.S. Tenho gostado muito dos encontros com o Padre João no blog
Filhotes,
Porquê, porquê, porquê?
E as respostas estão dentro de vós!
A maioria de nós viaja e regressa a pensar que conheceu povos, usos e costumes e que até adquiriu a bagagem necessária para fazer uma boa análise ou comentário televisivo. Como, sem experimentar na pele os cheiros, o desconforto, os meios de transporte e a sabedoria de vida dessas gentes?
Nem todos teríamos a vossa capacidade e coragem. Eu não e a Cristiana sabe. Por isto mesmo, obrigada. Por me terem permitido partilhar.
Um beijo forte da vossa, Mami
P.S. Tenho gostado muito dos encontros com o Padre João no blog
Vou amanhã a Lisboa para visitar a exposição de S.Francisco Xavier. Lembro-me especialmente hoje porque os restos dele estão aí em Goa e é enorme a devoçao dessa gnte pelo santo missionãrio, mesmo dos hindús. E dura há mais de 400 anos! Como ficaram restos de uma presença portuguesa que nem as barbaridades apagaram. Saudades.P.J.
Aventura é mesmo assim... Uma coisa é certa, serão sítios inesquecíveis e os cheiros só vocês os conheceram. Fiquei muito contente com a descrição sobre os laços entre Goa e Portugal, tinha esperança que fosse algo do género. Obrigado por partilharem.
Força aí nos próximos desafios.
Abraço e beijocas,
João Tomé
Diz a lenda que, certa vez, um homem caminhava pela praia numa noite de
lua cheia e pensava desta forma:
"Se tivesse uma casa grande, seria feliz. Se tivesse um excelente trabalho,
seria feliz". "Se tivesse uma companheira perfeita, seria feliz.
Nesse momento, tropeçou com uma sacolinha cheia de pedras e começou a
jogá-las, uma a uma, no mar, a cada vez que dizia: "seria feliz se tivesse......"
Assim o fez até que a sacolinha ficou com uma só pedrinha, que decidiu
guardá-la. Ao chegar em casa, descobriu que aquela pedrinha tratava-se de
um diamante muito valioso e todos eles tinha jogado no mar.
E você imaginou quantos diamantes jogou no mar, sem parar para pensar?
Quantos de nós vivemos jogando fora nossos preciosos tesouros por estar
esperando o que acreditamos ser perfeito ou sonhando e desejando o que
não temos, sem dar valor ao que temos perto de nossas mãos?
Quantos de nós vivemos jogando fora nossos preciosos tesouros por estar
esperando o que acreditamos ser perfeito ou sonhando e desejando o que
não temos, sem dar valor ao que temos perto de nossas mãos?
Olhe ao seu redor e, se você parar para observar, perceberá quão
afortunado você é. Muito perto de ti está a tua felicidade. Observe a
pedrinha, que pode ser um diamante valioso...
Cada um de nossos dias pode ser considerado um diamante precioso e
insubstituível. Depende de ti aproveitá-lo ou lançá-lo ao mar do
esquecimento para nunca mais recuperá-lo.
Enviar um comentário
<< Home